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02 maio, 2026

ENQUANTO SONHAVA E A VIDA PASSAVA


  

  Maria viveu sua adolescência num meio onde o papel higiênico eram folhas de ervas daninhas, detergente era luxo da cidade, sabonete era sabão caseiro feito com um dos porcos que não sobreviveu para o abate, só se ouvia rádios AM e se frequentava a igreja no final de semana.

   Em seu colchão de palhas de milho sonhava em concluir as séries primárias na escola isolada, recentemente batizada de multisseriada e poder ser matriculada na Escola Básica. Não deu certo. Teve que ajudar a mãe a trocar as fraldas e a dar mamadeira para o irmão, estender as roupas lavadas na cerca de arame farpado, confeccionar a vassoura que o pai acomodado adiava, degolar a galinha que seria assada no domingo, preparar o pão de milho, levantar de madrugada para carregar os frangos do aviário do vizinho, descarregar as espigas de milho e as abóboras ao entardecer.

   Trabalhando, percorrendo caminhos, colhendo frutas na propriedade vizinha, brincando nos cipós, onde quer que estivesse, estava com seus pensamentos voltados para o futuro.

   Queria aprender, almejava ser uma criatura culta. Por isso sintonizava o antigo rádio à pilha em emissoras de São Paulo, para ouvir debates sobre economia, política, educação, etc. Lia os jornais que envolviam as raras compras feitas pelo pai e as revistas que seriam eliminadas pela professora Tereza, onde descobriu uma foto do desconhecido Mick Jagger, em 1970.

  Vivia no telhado da casa ajustando a posição da antena para assistir aos programas da Globo, único canal acessível. A televisão a hipnotizava. Não podia assistir aos programas infantis porque havia sido proibida por deixar de cumprir as precoces obrigações com a casa. Mas não resistia! O medo de ser flagrada pelo pai que poderia chegar de repente do trabalho na lavoura a fazia ficar com um olho nos desenhos animados e o outro na fresta da janela. Mesmo assim era arriscado: se desligasse a velha Telefunken, poderia ser desmascarada pelo maldito ponto luminoso no centro da tela que demorava a desaparecer e se usasse sua artimanha - escurecer totalmente a imagem e diminuir todo o volume – poderia se denunciar na presença do pai, pois seu coração acelerava e a ansiedade aumentava na medida em que ele se prolongasse, tomando a água gelada diante da geladeira.

   Talvez tenha sido essa curiosidade ilimitada e a vontade enlouquecedora de saber mais que a fez devorar módulos do supletivo, passar com segurança pelos bancos que lhe garantiram outros certificados e diplomas indispensáveis para abrir novas portas para o conhecimento.

   Suas conquistas parecem ter sido oportunizadas pela providência divina, gratificando-a por ser uma das sonhadoras que provam o que John Lennon cantava: "Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único”.

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18 dezembro, 2006

173. Viver é para profissional


Jornal de Cocal: 27 de dezembro de 2006
O título de um livro exposto na vitrine de um sebo mostrava-se interessante: “Viver é para profissional”.
Para compreender a amplitude dessa afirmação faz-se necessário explorar o significado de viver. Apesar dessa palavra ser usual, procuramos ajuda num dicionário para refletir sobre o significado que ela abrange; encontramos quase meia página.
Viver é existir. As plantas e os animais vivem. Mas, nem tudo que existe tem vida. Óbvio? Talvez!
Viver é ter vida. Mais meia página explicando o que é vida: “Vida é a união da alma com o corpo. Vida é o espaço de tempo compreendido entre o nascimento e a morte. Vida é a maneira de viver no tocante à fortuna ou desgraça de uma pessoa ou às comodidades ou incomodidades com que vive. Vida é ocupação, emprego, profissão. Vida é o princípio de existência de força; condições de bem-estar, vigor, energia, progresso.” Viver é muita coisa!
Viver é freqüentar a sociedade. Estar presente em festas é pouco. Precisamos acompanhar as mudanças, saber lidar com os perigos escondidos no meio da multidão, conhecê-la via jornais, manter contatos importantes, buscar meios de colaborar com o mundo!
Há quem prefira viver ao seu modo, de acordo com a sua razão ou gosto, sem se guiar pelo exemplo alheio nem se importar com a opinião dos outros. Pode parecer fácil e autêntico, porém, o bom profissional jamais deixa de ouvir e seguir bons conselhos.
Na era da comunicação há quem deseje viver a sós consigo, não comunicam seus pensamentos. É um provável fracassado? Não parece ser coerente optar pela auto-exclusão.
Uns vivem economizando, enquanto outros vivem como um rei. Ambos tem que ter competência para administrar seus recursos. É claro que há pessoas economizando porque têm uma renda baixa e outras que o fazem por serem sovinas. Também, conhecemos pessoas ricas que usufruem a fortuna herdada ou conquistada com o fruto do seu talento, enquanto alguns “fingem ter e ser” além de seus limites.
Não é fácil viver da graça de Deus, tendo muito pouco para sustentar a si e a própria família. Ninguém deveria viver na desgraça, na miséria. As injustiças sociais exigem profissionais bons que lutem contra sua força porque não é possível viver de ar.
Apesar de existir pessoas querendo viver à sombra de alguém ou sobre um leito de rosas - entre prazeres, feliz, ocioso, na moleza - a maioria deseja viver de suas mãos, sustentando-se com o produto do seu trabalho.
Os seres humanos que vivem debaixo do mesmo teto – que pode ser da casa onde moram, da escola, da fábrica, da igreja, do estádio municipal, do ônibus - precisam viver em harmonia, em paz e amizade. Para viver bem é fundamental levar a vida de acordo com a moral e com profissionalismo!
Desejo profundamente que o ano vindouro nos torne profissionais na arte de viver!

07 outubro, 2006

162. A menina que roubou uma lasca de sabonete

Jornal de Cocal: dia 4 de outubro de 2006

Dona Josefa entrou na sessão eleitoral, retirou o título da carteira surrada, entregou aos mesários, aguardou o encaminhamento do presidente de mesa e dirigiu-se à cabine segurando a “colinha” com o número dos cinco candidatos que escolheu desprovida de expectativas.



Ela pediu uma cadeira e foi prontamente atendida por um “convocado”. Sentou-se devagar. Abriu o papelzinho. Olhou os números. Achou incômoda a luminosidade da urna eletrônica. Suspirou fundo. Observou uma única pessoa na fila. Procurou os óculos na sacola. Secou o suor do rosto com um lenço amarrotado. E, de repente começou a girar a aliança no dedo. O comportamento estranho despertou a atenção dos presentes. Informaram-na de que deveria votar depressa.


Levantando a cabeça e fitando os olhos na parede, ela disse: “Há muitos anos atrás, uma menina de seis anos foi passear na casa da irmã mais velha de seu pai. Ela viu sobre a pia da cozinha uma lasca de sabonete. Sabe, a gente vai usando, vai usando, até que fica uma camada fina de sabonete. Ela sonhava em poder tomar banho com sabonete. Desejava ficar perfumada. Queria, pelo menos um dia, se livrar do sabão fedorento que seus próprios pais faziam com os porcos mortos doados pelo vizinho que era suinocultor. Aquela era uma oportunidade rara. Então, cometeu um grande crime: roubou a lasca de sabonete! Nunca mais esqueceu daquele ato abominável. Seu coração disparou por mais de duas horas. E, quando acalmou-se, a consciência veio lhe perturbar. No caminho de volta pra casa, andando ao lado do irmão, pensou em uma maneira de justificar o “futuro aparecimento de um pedacinho de sabonete”. Ela não teria coragem de contar a verdade à mãe. Sua ingenuidade era tamanha que sequer pensou na possibilidade de esconder o seu “roubo”. Então, o que foi que ela fez? Acredite! Jogou aquela lasca de sabonete na estrada de chão e fingiu que o encontrara naquele mesmo momento. O irmão percebeu que havia algo errado, embora fosse mais novo que ela. Imagine! Ela acabava de se entregar da maneira mais tola possível. A mãe, ao saber do fato, percebeu a mentira. Era impossível que um pedaço de sabonete, estivesse naquela curva da estrada, debaixo daquele pinheiro! Ela lembra que sua mãe não contou nada ao seu pai porque certamente apanharia com uma vara de vime ou com a cinta de couro. Mas, a dor maior estava em sua alma! Por sorte, estava preste a passar a Primeira Comunhão. Esse sacramento era recebido somente depois de confessar seus pecados. Aquela menina sossegou somente depois de ter pedido perdão ao Padre. E, nunca mais, nunca mais na vida, roubou nada de ninguém. Agora, ela está aqui. Não é mais uma garotinha pura. É uma velha mulher que amadureceu seguindo os princípios bons, obedecendo aos mandamentos de Deus e buscando aprender todos os dias. Sempre ensinou seus filhos pelos exemplos. Nunca manchou seu caráter. Sim, errou muito. Porém, sempre soube corrigir seus erros. Agora, ela não quer errar. Mas, está apavorada porque dependendo de suas decisões, ela pode ser cúmplice de ladrões, mentirosos, bandidos e corruptos. Ela pode estar ajudando pessoas que jamais se arrependerão de roubar uma lasca de sabonete. E, infelizmente, são eles que entram na casa dos brasileiros com mais facilidade. Não conseguimos detectá-los facilmente.Não quero ser enganada.


Na fila, mais de dez eleitores aguardavam a sua vez. Todos em silêncio, atônitos diante da inusitada situação, viram Dona Josefa chorando pedir que cancelassem seu voto. Depois, educadamente, desculpou-se e saiu.


Os demais, continuaram ali para exercer seu direito de votar. Direito esse, que muitos fazem valer porque é também, um dever.

23 setembro, 2006

160. Eu, tu, ele, nós, vós e eles sonhamos

Jornal de Cocal: dia 20 de setembro de 2006

Eu sonhei em morar numa casa no alto de uma colina cercada de árvores e flores. Moro num apartamento alugado, simples, pequeno e que requer uma pintura nova.

Tu sonhastes em cursar Direito, defender seus clientes sabiamente, ter o melhor escritório da cidade e enriquecer às custas de seu próprio trabalho. Hoje, trabalhas numa fábrica de ração, prestes a falir, ganhas o suficiente para sobreviver, precisas economizar porque deves ao banco e não pensas em retornar aos estudos.

Ele queria conhecer Brasília, andar pela capital do seu país, encontrar os políticos que ajudou a eleger e dizer que ainda acreditava que na existência de homens honestos representando o povo. Infelizmente, um câncer na garganta foi mais forte que as radioterapias, as quimioterapias e rezas dos parentes e amigos. Ele morreu sem realizar seu sonho e descrente em relação à consciência humana.

Ela sonhava em ser mãe, carregar uma criança em seu ventre, ensinar ao fruto do seu amor, as primeiras palavras e letras e também em educá-lo, segundo os princípios bíblicos e morais. De repente, uma doença a deixou sem útero. Hoje, o nome dela está entre os primeiros na lista de adoção e o tempo tratou de apaziguar suas dores.

Nós sonhamos com o amor transformando o mundo, com a queda dos números que refletem a violência e desejamos ética na administração pública. Quando abrimos os jornais somos informados que mais pessoas morreram no Líbano, que crianças foram seqüestradas, que os bandidos estão dando as ordens enquanto os políticos desviam dinheiro do povo.

Vós buscais a paz interior, o crescimento pessoal e o reencontro com as virtudes humanas. Porém, escondes as verdades espalhando mentiras, não entras em grupos organizados por forças positivas, deixas o egoísmo agir em sua vida e não pensas em ser solidário, participativo e verdadeiramente honesto.

Eles sonharam que um dia seriam renomados jogadores de futebol, assinariam contratos com clubes europeus, comprariam mansões e carros de luxo. Não deu certo. Agora, eles enfrentam as filas dos desempregados, falta dinheiro pra pagar a pensão exigida na justiça pela ex-mulher, andam de bicicleta e ainda detestam leitura e matemática.

Elas sonharam em encontrar um príncipe encantado que lhes proporcionasse uma vida melhor: casa com piscina, roupas bonitas, viagens turísticas, filhos maravilhosos e felicidade eterna. No entanto, aceitaram dividir um barraco, usar sapatos de promoção, sair apenas para tomar um refrigerante na lanchonete da esquina e descobriram que os problemas familiares são mais fortes que a paixão.

Hoje, eu sonho em realizar palestras na área educacional. Tu sonhas em ver sua empresa restabelecida e melhorando seu salário. Ele sonha com o céu. Ela sonha em ser chamada pela Comarca para buscar seu filho ou sua filha. Nós sonhamos com o fim das guerras. Vós sonhais em conquistar a harmonia interior. Eles sonham com os filhos jogando futebol profissional. Elas sonham com a Fada Madrinha!

Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles e elas sonhamos todos os dias. Às vezes, os sonhos ficam adormecidos, mudam ou são redirecionados. Mas, sempre, há sonhos!

04 setembro, 2006

155. Sete minutos

Jornal de Cocal: 9 de agosto de 2006

Dediquei muitas horas de estudo para conhecer um material didático interessante para ensinar polinômios aos alunos da sétima série. Planejei as aulas cuidadosamente. Fui além, elaborando jogos. Organizei a turma em grupos de quatro membros. Distribuí quadrados e retângulos azuis e vermelhos. Peguei a listagem de exercícios. Iniciei o conteúdo sempre interagindo com a classe.

De repente, percebi que quatro meninos estudavam para a prova de Ciências que aconteceria assim que meu tempo terminasse. Fiquei indignada. Mais ainda, depois que descobri que aquela avaliação seria com consulta! Critiquei-os, cheia de razão, sob meu ponto de vista: “Vocês apresentam dificuldades em matemática. Eu preparo uma aula prática para que possam compreender melhor o conteúdo em questão. O que pretendem? Fico decepcionada com essa atitude que me leva a crer que realmente não preciso ajudá-los. Se reprovarem, posso lavar minhas mãos. A minha parte, eu fiz e bem feita.”

Após desabafar na sala dos professores, ouvi uma sugestão: “Assista uma peça teatral gravada em DVD, intitulada Sete Minutos, com Antônio Fagundes. Irás se identificar com o ator decepcionado e irritado com as atitudes do público. Ele próprio a escreveu relando os problemas encontrados nos palcos em relação ao comportamento da platéia. Assim, vai lhe ajudar a superar essas decepções.”
Sempre gostei da interpretação de Antonio Fagundes na televisão e no cinema. A partir de agora eu o admiro incondicionalmente. A peça que vi é obra de sua vivência de ator iniciada há trinta e sete anos, quatro anos antes do meu nascimento!

Pude fazer comparações do trabalho dele com o meu em sala de aula, que excedem o espaço que me é reservado para escrever. Ele reclamava das tosses, dos roncos, dos celulares tocando, das balas sendo passadas, do barulho do pacote de batatinhas e do homem que teve a audácia de tirar o sapato e colocar os pés sobre o palco. Eu pensava nas coisas que perturbam, nós professores, enquanto ministramos nossas aulas: chicletes, pirulitos, papéis de bala no chão, bonés tapando os olhos, conversas sobre namorados, bolinhas de papel, espelhos, batons, escovas de cabelo, alunos na janela, recadinhos circulando, carteiras riscadas, livros esquecidos, tarefas esquecidas, materiais esquecidos, trabalhos esquecidos.

O que dói não são os fatos isolados. O que nos machuca é saber que nos preparamos para apresentar um modesto espetáculo e somos desrespeitados por pessoas que deviam estar ávidas para buscar ampliar seus conhecimentos, desenvolver seu raciocínio e partilhar idéias.

Fagundes, representando a si próprio na peça, recusou-se a continuar com a peça por causa do comportamento de algumas pessoas e expulsou todos do teatro. Os protestos dos expulsos e dos atrasados, impedidos de entrar, lhe renderam muitas críticas, inclusive, dos próprios colegas. Que professor já não foi criticado por não aceitar que um aluno entrasse atrasado ou por ter retirado da sala alguém que tenha lhe ofendido? Inclusive, pelos próprios colegas de profissão? Ele admite: “O ator que faço é o único que leva pancada de todos os lados e é o que mais tem a aprender.”

As nossas reclamações podem ser uma declaração de amor ao Magistério. Concluo com as palavras de Antonio Fagundes: “A peça é uma declaração de amor porque estou prestando atenção a eles. Seria uma agressão se eu ignorasse aquelas pessoas. Pode fazer o que quiser que não me atinge! Não, me atinge, eu me incomodo com eles, eu me preocupo com eles. Não é só uma declaração de amor quando você diz que ama; é uma declaração de amor quando você diz que se importa.”

152. Um pé de árvore

Jornal de Cocal: 19 de julho de 2006

Olhe para a primeira árvore que encontrar e diga qual é o nome dela. Não sabe? Pergunte para a pessoa que estiver mais próxima. Ela também não sabe? Pergunte a outras pessoas. Ninguém sabe? Então, troque, tente identificar outra árvore. Também não consegue?

Será que vale à pena conversar com mais gente tentando buscar aprender mais sobre esse assunto simples e desafiante? Seus conhecidos estranharam seu questionamento, ao invés, de ficarem surpresos ao descobrirem que não sabem o nome da árvore sob a qual sentam todos os dias durante o intervalo do almoço, ou que cresceu no quintal da própria casa ou ainda, que ornamenta a rua onde residem?

Passe pela praça e observe a beleza de cada planta antes de regressar ao seu lar. Você sentirá dificuldades para explicar aos seus familiares onde exatamente visualizou um ninho porque não sabe dizer: “Há um ninho de tico-tico nos galhos da Tipuana.” Talvez, você saiba o nome da árvore e lhe dêem uma resposta que a coloca de volta à estaca zero: “Nunca ouvi falar que existe árvore com esse nome!”

Você quer informação seu irmão de que deixou seu carro no estacionamento em frente ao hospital, debaixo de uma paineira e se vê forçado a dizer: “Deixei embaixo daquela árvore que solta um algodãozinho.” Se ela não estiver nessa fase, talvez, você diga: “Deixei embaixo daquela árvore que tem uns espinhos no caule”. Na verdade, não são espinhos, são acúleos. De repente, neste dia sua distração e desconhecimento excedam o admissível: “Deixei meu carro embaixo de um pé de árvore.”

Provavelmente você é capaz de escrever o nome de trinta árvores. Imagine que ao entrar num bosque encontrarás todas as espécies descritas e terás que colocar placas identificando cada uma. Conseguirás? Talvez saibas onde está o pinheiro, o eucalipto, o coqueiro e as frutíferas. Porém, na sua lista aparecem cedro, canela, bracatinga, plátano, cangerana, peroba e tantas outras que o deixam confuso.

Quando você começou a falar, seus pais repetiam diversas palavras importantes: papai, água, boi, vermelho, pé, etc. Você fez a mesma coisa com seus filhos, afinal de contas, eles precisavam diferenciar os parentes, os animais, as partes do corpo, as cores e coisas necessárias para a sobrevivência. Por que será que não estão entre elas, grama, seringueira e orquídea?

Somos capazes de citar o nome de diversos animais do continente africano, de inúmeros atores estrangeiros, de carros de todas as marcas, de cantores brasileiros, de elementos químicos, de políticos, de aparelhos tecnológicos e no entanto, nunca perguntamos como se chama aquela árvore alta plantada ao lado da escola onde estudamos por mais de oito anos.

Enquanto ignoramos a presença das árvores, o mundo moderno faz o mesmo conosco. Antigamente, todos se conheciam pelo nome e sobrenome, independente da capacidade de dar frutos ou de pertencer a famílias nobres. Enquanto a tucaneira se transforma em “um pé de árvore”, o número do CPF se torna mais importante que nossos nomes documentos. É assim que o mundo segue!

149. Minhas árvores de estimação

Essas árvores também fazem parte da minha vida... ou melhor faziam...
Jornal de Cocal: 21 de junho de 2006

Tive duas árvores de estimação: um plátano e uma açoita. Ambas eram majestosas, imponentes, transmitiam energias positivas e lindas sob meu ponto de vista.

O plátano cresceu em frente ao antigo pavilhão da comunidade onde morei quando criança. Lembro-me que, sentada à sombra de sua enorme copa sustentada por um tronco curto e grosso, eu ria da vida junto com minhas amigas. Eu o achava poderoso, encantador e imaginava que se pudesse subir pelos seus galhos, viveria a mesma aventura de “Joãozinho e o Pé de Feijão”. Nos sábados à tarde, costumávamos recolher suas folhas espalhadas sobre a grama porque no domingo haveria culto e os adultos queriam o pátio limpo.
Há um plátano ao lado da Igreja São José de Criciúma. No momento, ele está parcialmente escondido pelo tapume colocado na área, devido à ampliação da igreja. Confesso que não fiquei preocupada com o abacateiro e com os flamboyans, quando os meios de comunicação tornaram públicas as discussões sobre a possibilidade de arrancá-los em função da obra que se iniciava. Ninguém falou sobre o plátano, mas como ele está tão próximo das outras árvores, desconfiei que corria risco, também. Um taxista com ponto naquele local, sem saber, tranqüilizou-me naquela época.


Os meus sentimentos podem parecer ridículos às pessoas, dentre as quais me incluo, que convivem num mundo tecnológico, ganancioso e afastado dos elementos da natureza. No entanto, nos dias que eu reservava um tempo para sentar nos bancos da igreja e fazer uma oração, procurava sair pela porta lateral e sentir de perto meu passado através da presença daquela planta especial. Li algo interessante que ajudou-me a compreender minhas saudades: “Os plátanos vivem intensamente as estações do ano. Na primavera, ficam cheios de rebentos e folhas novas de um verde claro, no verão os plátanos ficam frondosos e cheios dando uma sombra apetecível, no outono as folhas tornam-se totalmente amarelas e no inverno perdem toda a folhagem ficando totalmente despidos apenas com o tronco e os ramos. Observar um plátano, é observar o desenvolvimento das estações do ano e, conseqüentemente, o andar do tempo”.
A açoita, era assim que meu pai a denominava, nasceu numa encosta e sobreviveu alguns anos, além de suas conterrâneas, por causa de seu tamanho. Ao redor dela havia uma plantação de milho. Meu serviço era capinar o mato que ameaçava o milharal. Nas horas, em que eu descansava, ficava admirando seus galhos retorcidos, as frestas que apresentavam como pano de fundo o céu azul, as diferenças de tons entre as partes externas e internas da folhas, os musgos suspensos, os cipós dependurados, os passarinhos descansando. Eu desejava ter coragem e força para poder subir até sua copa! O lugar onde suas raízes se fixaram era privilegiado pela visão que apresentava.
Aquele plátano e aquela açoita não suportaram o massacre do progresso. Ele foi arrancado quando construíram um Centro Comunitário de material, com quadra esportiva, cancha de bocha, cozinha e vestiários. Ela foi vendida para uma serraria qualquer e seus pedaços menores queimados num fogão à lenha que também não existe mais.
Haverá o dia que não existirão, também, as pessoas que se recordam dessas árvores. Ninguém fica pra semente... Deveríamos, pelo menos, plantar coisas boas antes de morrer.