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25 novembro, 2006

168. Quem fez a escola acontecer?

Jornal de Cocal: dia 22 de novembro de 2006

Já estamos na reta final de mais um ano letivo. Iniciamos a contagem regressiva!


Como se sentem os professores em relação a sua prática pedagógica? Que análises a Equipe Diretiva faz do seu próprio trabalho? Há mais pais tranqüilos ou temerosos em relação à aprovação dos seus filhos? Quantos alunos estão ansiosos com as notas que refletem parcialmente sua caminhada pelos conteúdos oferecidos para que cresçam integralmente? De todos os membros da comunidade escolar, quantos serão humildes, justos e verdadeiros ao fazerem uma auto-avaliação do papel que desempenharam no decorrer do ano?


Erros e acertos acompanharam professores, diretores, orientadores, pais e alunos. Que atire a primeira pedra quem nunca falhou! Que colha flores quem já acertou! Não há dúvidas de quem ninguém poderá arremessar uma pedra e de que todos estarão segurando um buquê. A diferença estará na quantidade de flores e nas cores do buquê que cada um poderá fazer no momento da colheita. Haverá flores murchas no meio das vigorosas e vice-versa. Alguns formarão um buquê com margaridas, azaléias, copos-de-leite, estrelinhas, lírios, e galhos de samambaias. Outros, sabem que em seu buquê haverá apenas rosas e um galhinho de avenca!
A escola é um jardim que floresce todo ano durante todas as estações. A terra boa que ela precisa para apresentar bons resultados é cultivada por diversas mãos. Há mãos que preparam, espalham e regam as sementes. Há mãos que retiram a erva daninha que irá sufocar algumas plantinhas. Há mãos que fazem o buraco do transplante da muda. Há mãos que arrancam a planta da terra e a esquecem num canto. Há mãos calejadas que não desistem do trabalho. Há mãos que apontam culpados. Há mãos que seguram com força. Há mãos sujas de terra e que por isso, estão limpas. Há mãos limpas que desconhecem a textura da vida. Há mãos que se escondem depois de dar o tapa. Há mãos que tocam pedindo desculpas. Há mãos que cruzam os dedos pedindo a interferência divina. Há mãos que fazem a escola acontecer.


A escola sofre porque é formada por seres humanos que desejam, amam, batalham, cansam, traem, adoecem, decepcionam-se, tem expectativas e sonhos. Nem todo sofrimento é ruim!


A escola vibra porque é formada por pessoas que fantasiam, pensam, descobrem, concretizam idéias, colaboram e buscam caminhos. Nem todas as vibrações são positivas!


A escola não pára porque o mundo precisa de um lugar onde as diferenças se encontrem, os calor humano se apresente, o conhecimento seja explorado, as dores tragam aprendizagem e as perguntam busquem respostas.


Certamente, as mãos mais bonitas estarão colhendo as flores mais belas dentro das melhores escolas. Precisamos acreditar ainda mais no potencial educador das instituições de ensino e portanto, na força transformadora existente em cada um dos seus membros.


Mais mãos, mais flores! Mais flores, mais qualidade! Mais qualidade, mais escolas melhores!

09 outubro, 2006

163. O significado de ser professor


Professoras Ana Lúcia, Micheline, Bárbara e Adair com seus alunos.
Jornal de Cocal: dia 11 de outubro de 2006

Professor é aquele que professa ou ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina. O dicionário tem que ser objetivo. Por isso, o significado encontrado é superficial. Professor é muito mais do que alguém que ensina...

A profissão do professor é árdua como a do pedreiro, difícil como a do mineiro, estressante como a do motorista, complexa como a do psicólogo, burocrática como a do advogado, delicada como a do médico, emocionante como a do bombeiro, esperançosa como a do pescador, tolerante como a do padre, bela como a do músico, agitada como a do ator, etc. A vida do profissional que assumiu a missão de educar excede as palavras que podem ser usadas para descrevê-la.

Preconiza-se que o professor deve estar atento a tudo o que acontece na sua “jurisprudência”. Ele tem que verificar quem está fazendo tarefa e comunicar os pais. Ele precisa observar as crianças que porventura estão sofrendo abusos sexuais ou psicológicos e tomar as devidas providências. Ele precisa inovar as aulas com atividades e materiais didáticos interessantes. Ele deve acompanhar os noticiários porque tem a obrigação de usar essas informações para colaborar com a transformação do mundo. Ele deve corrigir cuidadosamente as provas e os trabalhos dos alunos, analisando o desempenho individual de cada educando e poder assim, interferir positivamente na aprendizagem. Ele tem que ser sensível, aos problemas pessoais de cada aluno, cujo nome esteja em seu diário escolar. Ele precisa conhecer os Parâmetros Curriculares Nacionais, ajudar a construir o Plano Político Pedagógico, informar-se sobre a lei nº 10639, estudar as questões referentes à Educação Especial, ler livros técnicos, visitar sites sobre educação, aprender informática, organizar feiras, trocar experiências com os colegas...

A maioria dos professores tem consciência de que sua missão exige que considere tudo isso. No entanto, não é fácil “abraçar o mundo”! As conseqüências pesam sob a forma de “sentimentos de incompetência e de culpa”. Há quem não resista a tanta pressão e peça socorro através de um atestado médico ou de uma licença. Outros, conseguem driblar as fases difíceis e aproveitam ao máximo os dias bons. Existem também os que fazem da educação uma brincadeira e os que brincam de educar!

Que presente os professores esperam receber no dia 15 de outubro? Pode ser uma flor ou uma maçã. Serve um desenho com uma frase copiada. O reconhecimento dos pais pelo seu esforço constante é bem-vindo. Uma mensagem com um bombom grampeado? É formal demais, mas se faltar, será reclamada. Um abraço carinhoso e verdadeiro seria maravilhoso. Talvez, um jantar pra comemorar o seu dia...

Há professores que jamais pararam para pensar que nesse dia podem estar recebendo um presente que nunca ficarão sabendo. Esse presente está refletido nas atitudes, no caráter e no espírito guerreiro de alunos que um dia o tiveram como exemplo e como um amigo.

Ser trabalhador é motivo de orgulho. Ser um professor que batalha em prol da educação é explodir de orgulho.

04 setembro, 2006

158.Skywalker: caminhante dos céus

Jornal de Cocal: 6 de setembro de 2006

Os alunos foram avisados de que naquela terça-feira não haveria aula porque os professores participariam de uma reunião pedagógica. Eles gostaram do aviso porque poderiam dormir até mais tarde e assistir o desenho animado do Bob Esponja Calça-Quadrada. Poucos aproveitaram a folga para estudar mais um conteúdo que acham difícil, ler um livro, fazer as tarefas ou mesmo ajudar nos afazeres domésticos.

Enquanto isso, os professores desligaram o piloto-automático e assistiram a um filme que objetivava reanimar o trabalho docente. Certamente, aquele filme – Escola da Vida – não era dos melhores pra refletir sobre questões educacionais devido aos momentos que fogem da realidade. Afinal de contas, que escola tem estrutura pra dramatizar uma história acendendo uma fogueira dentro da própria sala de aula? Que professor ganha tão bem que pode adquirir roupas épicas a fim de trazer o passado mais próximo da realidade? Que condições existem para que se possa planejar uma aula de Ciências exibindo um pulmão em perfeito estado de conservação? Como pode o novo agradar tanto se não apresenta as marcas da experiência? Como pode o velho ser tão ruim diante das mudanças da modernidade? O bonito encanta e o feio é um tolo? O renovador é maravilhoso e o tradicional é uma tragédia? É certo ensinar a perder com alegria? É correto competir às custas da exclusão dos mais fracos? Enfim, nem um filme é perfeito! Assim, como nenhum profissional está plenamente formado.

Embora as interpretações e as partes que mais tocaram aqueles profissionais não sejam as mesmas, houve um discurso – de um jovem professor - que prendeu a atenção de todos: “Estudar é coisa pra heróis. Ir para casa é como encarar uma “Guerra nas Estrelas”. Vocês são como o Luke Skywalker ou Lucy Skywalker, conforme o caso. E a escola é onde recebemos o treinamento Jedi. Afinal, precisamos nos preparar para enfrentar o Império do Mal. Mas, o Império do mal não é a escola, não são nossos pais, nem a salsicha de gosto duvidoso da lanchonete. Não! O Império do Mal é uma crença. É crer que temos limitações. Não temos. Talvez não saibam, mas todos vocês são suspeitos. Normam Warner (refere-se a um antigo professor) foi meu mestre Jedi. O grande ensinamento que ele me passou foi como aprender sozinho; ser meu próprio mestre. Quero que aprendam que não devem se preocupar com o que vocês farão. Isso não importa. Preocupem-se com o que vocês serão. Assim, nenhum bundão vai impedir que vocês realizem seus sonhos. Este é o seu sabre de luz (fala mostrando um simples lápis). Toque numa simples folha de papel com fé, emoção e coragem e juntos faremos desse mundo um lugar melhor e me levem nessa jornada com vocês.”

As reações foram diversas. Alguns relembraram a história de Guerra nas Estrelas, outros frisaram o descrédito do ser humano no seu potencial evolutivo, admiraram a importância do lápis como instrumento de poder educativo e até retomaram momentaneamente seus sonhos de participar da construção de um mundo melhor.
Entretanto, um educador resolveu tecer apenas um comentário estranho: “Vejo em Skywalker as palavras céu e caminhante. Sky, céu! Walker, caminhante! É tão fácil criar personagens marcantes. É tão difícil ser uma pessoa importante para a humanidade.Fazer filmes é mais simples do que construir a realidade! Antes que eu vire as costas estarão dizendo que estou fora de órbita. Mas, quem é que pode ter certeza de estar no caminho certo. Talvez as borboletas e as baleias que não pensam, seguem a natureza!”

A maioria saiu convencida, mesmo inconscientemente, de que precisava ampliar o conceito do que é um lápis...

156. E-mail, MSN, fotolog, orkut, blog, etc

Jornal de Cocal: 16 de agosto de 2006

A Internet renovou o vocabulário, principalmente, dos adolescentes e jovens. Quantos de nós, adultos desligados das novas tecnologias, já não ficamos intrigados com neologismos que nos cheiram a “computador”? Tentamos compreender o que querem dizer exatamente com:

— Recebi por e-mail umas piadas tão engraçadas sobre o Zidane e duas mensagens lindas em Power-point, com paisagens encantadoras.

— Entra no MSN, sábado depois das duas horas, que vou estar lá. Antes desse horário não dá por causa do preço, ainda não temos ADSL. Quero te contar umas coisas que agora não dá tempo.

— Você viu as últimas fotos do meu fotolog? Demorei um monte pra baixar porque as fotos são pesadas! E os recadinhos que deixaram pra mim. Estou arrasando!

— Tem uma comunidade no Orkut chamada “Por que os professores de matemática nunca faltam”. O filho da professora de Geografia fez a comunidade da nossa escola, entra lá pra comentar os tópicos e ver quem são os membros. Eu escrevi um depoimento para Michele que estuda de manhã na sala do meu primo. Já tenho uns duzentos amigos e mais de vinte fãs. Vocês quer me adicionar também?

— Criaram um blog pra gente publicar os trabalhos escolares. Entra lá pra ver. Eu vi uma foto da nossa turma lá em Maracajá. O endereço é http://demetriobettiol.blogspot.com. Tem pouca coisa porque está começando a ser montado e nem as professoras sabem direito como funciona. Eu sei é que lá não vai dar pra escrever do jeito que a gente faz no quando deixa recado no orkut ou conversar pelo MSN.

Há pais acreditando que seus filhos são inteligentíssimos porque conhecem diversos recursos do computador, sabem navegar na Internet e falam fluentemente o internetiquês. Alguns, sentem-se constrangidos diante dos filhos porque não assimilam a evolução tecnológica facilmente.

Por outro lado, alguns adolescentes e jovens pensam que fazem parte de uma geração mais avançada que a dos pais por estarem atualizados com as novidades oferecidas pelos novos aparelhos e recursos de comunicação.

Quero pedir desculpas por ser tão franca, antes mesmo de escrever minha opinião formada enquanto eu trilhava os caminhos do e-mail, orkut, MSN e fotolog. Salvam-se os blogs, mas infelizmente, essas páginas pouco atraem. Quero dizer, primeiramente, que também tenho essas coisas todas. Afinal, preciso estar atualizada! E, o melhor jeito de entender esses processos é fazendo parte dessas realidades. Por tanto, falo com embasamento prático.

Acho que nossos adolescentes vivem uma ilusão ao acessarem e fazerem parte dessas novidades. Eles perdem horas preciosas de suas vidas lendo recados sem conteúdo, procurando escrever “errado”, acreditando que podem ter centenas de amigos e dezenas de fãs. É lamentável, pois, a maioria deles não consegue usar a Internet de maneira instrutiva, educativa e inteligente.

Sabe o que é que está faltando pra que isso tudo se reverta a favor dos adolescentes, jovens e adultos? A geração mais nova precisa reaprender a ser humilde diante dos saberes dos seus antecessores e a geração mais velha não pode esquecer do valor que representa sua experiência de vida diante dos seus precursores. Sei que isso é mais complicado do que aprender a digitar num computador depois de ter vivido anos e anos usando um lápis, uma borracha e um livro didático. Não ignoro, também, que isso tudo nos assusta!

155. Sete minutos

Jornal de Cocal: 9 de agosto de 2006

Dediquei muitas horas de estudo para conhecer um material didático interessante para ensinar polinômios aos alunos da sétima série. Planejei as aulas cuidadosamente. Fui além, elaborando jogos. Organizei a turma em grupos de quatro membros. Distribuí quadrados e retângulos azuis e vermelhos. Peguei a listagem de exercícios. Iniciei o conteúdo sempre interagindo com a classe.

De repente, percebi que quatro meninos estudavam para a prova de Ciências que aconteceria assim que meu tempo terminasse. Fiquei indignada. Mais ainda, depois que descobri que aquela avaliação seria com consulta! Critiquei-os, cheia de razão, sob meu ponto de vista: “Vocês apresentam dificuldades em matemática. Eu preparo uma aula prática para que possam compreender melhor o conteúdo em questão. O que pretendem? Fico decepcionada com essa atitude que me leva a crer que realmente não preciso ajudá-los. Se reprovarem, posso lavar minhas mãos. A minha parte, eu fiz e bem feita.”

Após desabafar na sala dos professores, ouvi uma sugestão: “Assista uma peça teatral gravada em DVD, intitulada Sete Minutos, com Antônio Fagundes. Irás se identificar com o ator decepcionado e irritado com as atitudes do público. Ele próprio a escreveu relando os problemas encontrados nos palcos em relação ao comportamento da platéia. Assim, vai lhe ajudar a superar essas decepções.”
Sempre gostei da interpretação de Antonio Fagundes na televisão e no cinema. A partir de agora eu o admiro incondicionalmente. A peça que vi é obra de sua vivência de ator iniciada há trinta e sete anos, quatro anos antes do meu nascimento!

Pude fazer comparações do trabalho dele com o meu em sala de aula, que excedem o espaço que me é reservado para escrever. Ele reclamava das tosses, dos roncos, dos celulares tocando, das balas sendo passadas, do barulho do pacote de batatinhas e do homem que teve a audácia de tirar o sapato e colocar os pés sobre o palco. Eu pensava nas coisas que perturbam, nós professores, enquanto ministramos nossas aulas: chicletes, pirulitos, papéis de bala no chão, bonés tapando os olhos, conversas sobre namorados, bolinhas de papel, espelhos, batons, escovas de cabelo, alunos na janela, recadinhos circulando, carteiras riscadas, livros esquecidos, tarefas esquecidas, materiais esquecidos, trabalhos esquecidos.

O que dói não são os fatos isolados. O que nos machuca é saber que nos preparamos para apresentar um modesto espetáculo e somos desrespeitados por pessoas que deviam estar ávidas para buscar ampliar seus conhecimentos, desenvolver seu raciocínio e partilhar idéias.

Fagundes, representando a si próprio na peça, recusou-se a continuar com a peça por causa do comportamento de algumas pessoas e expulsou todos do teatro. Os protestos dos expulsos e dos atrasados, impedidos de entrar, lhe renderam muitas críticas, inclusive, dos próprios colegas. Que professor já não foi criticado por não aceitar que um aluno entrasse atrasado ou por ter retirado da sala alguém que tenha lhe ofendido? Inclusive, pelos próprios colegas de profissão? Ele admite: “O ator que faço é o único que leva pancada de todos os lados e é o que mais tem a aprender.”

As nossas reclamações podem ser uma declaração de amor ao Magistério. Concluo com as palavras de Antonio Fagundes: “A peça é uma declaração de amor porque estou prestando atenção a eles. Seria uma agressão se eu ignorasse aquelas pessoas. Pode fazer o que quiser que não me atinge! Não, me atinge, eu me incomodo com eles, eu me preocupo com eles. Não é só uma declaração de amor quando você diz que ama; é uma declaração de amor quando você diz que se importa.”

147. Mensagem presente nos Hinos Nacionais

Jornal de Cocal: 14 de junho de 2006

Durante a Copa muito se fala sobre a beleza do Hino Nacional brasileiro. Há quem ache estranho, um país como o Brasil - que pouco investe na educação básica e na cultura - ter um hino com letra tão bonita e música tão sofisticada. Não podemos esconder, entretanto, o desconhecimento popular do significado de diversos vocábulos nele contido. Apesar de tudo, prevalece o poder de derramar lágrimas através da sua música.

Antes dos jogos da Copa do Mundo são executados os hinos dos times competidores. No canto inferior da televisão lemos a tradução. Percebi expressões comuns na maioria dos hinos: liberdade, brilho, luta, canhões, flores. A mensagem, muitas vezes, simboliza soldados que batalham contra os inimigos externos ou conterrâneos. Esse interesse levou-me a pesquisar. Inicialmente, eu queria saber o que diz o hino da França, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Itália. Por não encontrar a tradução, mudei o rumo da minha busca para os países onde se fala a Língua Portuguesa. Perguntei-me: o que passa pela cabeça desses povos quando ouvem sua canção patriótica?

Começamos por Portugal: “ Heróis do mar, nobre povo... Às armas, às armas! Sobre a terra, sobre o mar. Às armas, às armas! Pela Pátria lutar. Contra os canhões marchar, marchar!” A “descoberta do Brasil” é conseqüência da competência portuguesa na arte de navegar e construir embarcações. Mas, porque esse teor fortemente bélico numa canção?

O Timor-Leste tornou-se independente de Portugal em 1975 e libertou-se do domínio da Indonésia somente em 2002. Ainda hoje, a letra do seu hino expressa seus sentimentos recentes: Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação. Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.Vencemos o colonialismo, gritamos: Abaixo o imperialismo. Terra livre, povo livre. Não, não, não à exploração. Avante unidos firmes e decididos.” O governo brasileiro enviou recentemente uns sessenta educadores brasileiros para colaborar com o Ministério da Educação desse povo.

Moçambique também considera sua pátria bela, quer liberdade, tem um sol que sempre brilhará e “pedra a pedra” com uma “força única de milhões de braços” constrói um novo dia. Eles prometem: “Flores brotando do chão do teu suor. Pelos montes, pelos rios, pelo mar. Nós juramos por ti, oh Moçambique. Nenhum tirano irá nos escravizar.”

Cabo Verde apresenta lindamente: “Canta, meu irmão. Que a liberdade é hino. E o homem a certeza. Com dignidade, enterra a semente. No pó da ilha nua. No despenhadeiro da vida. A esperança é do tamanho do mar.”

O que será que aconteceu num certo quatro de fevereiro na Angola? Penso que não foi um dia tão fácil como o nosso sete de setembro. “Ó Pátria, nunca mais esqueceremos. Os heróis do quatro de Fevereiro. Ó Pátria, nós saudamos os teus filhos. Tombados pela nossa Independência. Honramos o passado e a nossa História. Construindo no Trabalho o Homem novo.”

Açores canta : “Para a frente! Em comunhão, pela nossa autonomia. Liberdade, justiça e razão estão acesas no alto clarão da bandeira que nos guia.” Florianópolis recebeu muitos açorianos, cujos descendentes vêem sua liberdade tolhida pela violência, assistem a corrupção afronta os desejos de justiça e que grita pela razão que deve estar presente nos animais ditos racionais.

Cada povo luta constantemente para que a sua História seja um exemplo. Seja chorando, morrendo, sofrendo, amando ou cantando.

03 setembro, 2006

140. Rádios e Quasímodos

Jornal de Cocal: 19 de abril de 2006

— Temos medo do desconhecido?
— Sim.
— Como devemos enfrentar nossos medos?
— Conhecendo-os!
— Quando é que tomamos coragem para enfrentar nossos medos?
— Quando surgem as necessidades.
— De que medo estamos falando, agora?
— Do medo de fazer parte da vida de crianças, jovens e adultos portadores de deficiências mentais e físicas.
— Por que temos de dialogar sobre esse assunto?
— Porque eles devem ser integrados na sociedade e para tanto contam contigo.
— Não tenho nada a ver com isso. Meus filhos são normais e já não lhes dou a atenção que merecem. Não encontro as metodologias adequadas para trabalhar com alunos sem deficiência, quanto mais os que apresentam algum quadro de limitações físicas e mentais. O governo é que precisa rever os espaços físicos e projetar obras para facilitar o acesso dessas pessoas. Esses educadores que pregam a inclusão deveriam ser mais práticos e menos teóricos.
— Você já tocou em algum "Corcunda de Notre Dame"?
— Como assim? O que queres dizer?
— Você já conversou, se aproximou de alguém que apresenta alguma deficiência física e percebeu que essa pessoa é inteligente e capaz?
— Não tive essa oportunidade. O Corcunda de Notre Dame é também um deficiente mental, não é?
— Não, o Quasímodo aparenta ter retardado mental porque foi isolado do mundo. Negaram-lhe o direito de interagir, descobrir, entrar em contato com a cultura de seu povo. Seu equívoco é perdoável, afinal, até médicos erram dando diagnósticos de pacientes capazes intelectualmente porque pensam que a falta de habilidades motoras está associada a problemas mentais. Já vi portadores de necessidades físicas rindo de médicos que atestaram: "retardamento mental". Quem é o verdadeiro retardado nessa história?
— Entendi. O preconceito é gerado pela ignorância.
— Eu gostaria que você conhecesse o Rádio, através do filme "Meu nome é Rádio" que é baseado em fatos reais. Ele é um exemplo das pessoas normais fisicamente, que podem desenvolver suas capacidades cognitivas, debilitadas por razões nem sempre conhecidas, se receberem uma mão amiga. Esse mundo altamente competitivo carece de pessoas solidárias, capazes de acreditar que ajudar um ser humano nunca é um erro.
— Por que ele se chama Rádio? É estranho...
— Descubra assistindo o filme. Posso lhe assegurar que saber a origem desse apelido não é o que há de mais rico nessa história. Espero que não esqueça do meu pedido. Afinal de contas, perdemos o medo conhecendo e é conhecendo que aprendemos a amar. Precisamos amenizar e quem sabe acabar com os preconceitos que temos em relação aos Rádios e Quasímodos. Essa lição é importantíssima! Talvez haja um pouco de cada um deles em nós mesmos.

131. Música e matemática: coisas divinas

Jornal de Cocal: 22 de fevereiro de 2006

Quando eu me sentia envolvida pela magia de uma música, imaginava o quanto poderia ser feliz se tivesse nascido com o dom de tocar habilmente um saxofone ou de encantar com uma linda voz, emocionando as platéias do mundo. A esplêndida beleza sonora, intrínseca nessa arte, fez-me suspeitar que os artistas da música “não têm carma ruim”: eles seriam exemplos de pessoas perfeitas aos olhos de Deus. Não me refiro a qualquer cantor de banda, compositor, baterista ou pianista. Falo daqueles que mesclam sua alma com as canções que executam, exteriorizando a complexidade dos sentimentos inerentes às criaturas vivas.
Entrei no Magistério na época em que a novela “A viagem” estava no ar. A história baseava-se na doutrina espírita que acredita na reencarnação. Segundo seus seguidores, morremos e renascemos para restaurarmos nossas maldades, injustiças, mentiras, enfim, temos que arcar com as conseqüências dos pecados práticos em vidas anteriores. Devido a essa filosofia, surgiram comentários gozadores e autodepreciativos: “Se uma pessoa tem como profissão ser professor significa que na vida passada ela foi extremamente má e precisa evoluir muito no sentido espiritual. O jeito mais rápido de pagar seus pecados é entrando numa sala de aula. Agüentar os alunos e ser humilhado pelo salário que recebe é um verdadeiro castigo.” Alguns, ainda acrescentavam: “Coitado de quem ministra aulas de matemática! Esse não consegue evoluir. Terá que reencarnar como professor de Educação Religiosa.”
Sabemos que um músico pode fazer da própria vida um inferno, acabando com a harmonia interior. Temos certeza de que um professor tem condições de vivenciar o Paraíso antes da “passagem definitiva”, afinal, já existem anjos ao seu redor. Tudo depende das concepções adquiridas, dos objetivos traçados e da crença na sua capacidade de amar e de agir em favor do próximo.
Frei Betto diz, sabiamente: “Acredito que Deus, ao criar o ser humano, deu-nos algo mais que Seu amor e semelhança para que merecêssemos ser considerados sua imagem e semelhança: a música e a matemática. São coisas divinas. A primeira, por ser uma emanação espiritual, articulada pela cadência de vibrações sonoras na pauta do tempo, capaz de elevar ou deprimir nosso espírito, agitar ou relaxar nosso corpo. A matemática, por nos permitir captar a mente divina.”
Entender o lado divino da música é fácil. Há cultos religiosos onde os fiéis passam a maior parte do tempo cantando e dançando discretamente. É assim que seus corações são tocados pela presença do Senhor Todo-Poderoso! Quando escolhemos ouvir nossas músicas prediletas, nos damos o prazer de nos encontrar, esquecendo as crueldades e violências da rua. Em todas as fases da vida, especialmente na juventude, curtimos os diversos tipos de música, porque isso faz bem para nossa mente.
O grande desafio está em mostrar a beleza existente na Matemática, na Geografia, na História, nas Artes, na Sociologia, nas Línguas, etc. Como ver Deus nessas coisas? Como colocar o Ser Humano no Além, sem ter que morrer para isso? Captar a mente divina é complicado, mas temos que ser persistentes tentando “abrir nossas mentes humanas” para o exercício consciente da justiça e do amor.

27 agosto, 2006

118. Dia do Professor!

Jornal de Cocal: 2005

Você sabe como surgiu a data em que comemoramos o Dia do Professor? Acredito que não. Afinal, poucos dentre nós, os maiores interessados, temos essa informação. Aproveitarei esse momento para apresentar a resposta dessa pergunta que acabei fazendo a mim própria somente depois de atuar uma dezena de anos no magistério.

No dia 15 de outubro de 1827, D. Pedro I baixou um decreto imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil. Esse decreto abordava questões sobre a descentralização do ensino, o salário dos professores, as matérias básicas que todos os alunos deveriam aprender e até como os professores deveriam ser contratados. Por causa da importância desta lei, a data começou a ser comemorada - já na década de 30 - e, em 1963, virou data comemorativa através de um decreto.

O governo incentivou os estudantes brasileiros a “inventarem a sua homenagem”. Alguns receberam o recado e fizeram algo para agradecer. Outros, escreveram bilhetes amorosos, atendendo o próprio coração.

O Jornal Nacional está exibindo uma série de reportagens mostrando “avanços ocorridos em alguns países que decidiram priorizar a educação”. É interessante saber como medidas educacionais mudaram a Irlanda, a Espanha, o Chile. No entanto, penso que podiam ter aproveitado essa semana que antecede o dia do professor para falar, por exemplo, dos professores nota 10 – Vencedores do Prêmio Victor Civita de 2005. Esses educadores buscam valorizar a presença dos idosos na comunidade, resgatam antigas radionovelas e fotonovelas, discutem a transposição do Rio São Francisco, escrevem contos de assombração, têm como ideal ensinar a ler o mundo e acreditam na sua missão. Por que não falam das “formiguinhas brasileiras” que organizam campanhas de reciclagem, montam laboratórios de matemática, ensinam yoga, dão aulas de violão, preparam viagens de estudo, planejam mosaicos nos muros, promovem a participação em jogos escolares, exploram a linguagem dos adolescentes? Enfim, está na hora de dar valor as coisas boas do nosso país. Não precisamos lamentar o tempo todo!

Tomo a liberdade de concluir meu texto usando uma mensagem bem-humorada, de autor desconhecido, intitulada O professor está sempre errado!: “Quando...É jovem, não tem experiência. É velho, está superado.Não tem automóvel, é um coitado. Tem automóvel, chora de "barriga cheia". Fala em voz alta, vive gritando. Fala em tom normal, ninguém escuta. Não falta às aulas, é um "Caxias". Precisa faltar, é "turista". Conversa com outros professores, está "malhando" os alunos. Não conversa, é um desligado. Dá muita matéria, não tem dó dos alunos. Dá pouca matéria, não prepara os alunos. Brinca com a turma, é metido a engraçado. Não brinca com a turma, é um chato. Chama à atenção, é um grosso. Não chama à atenção, não sabe se impor. A prova é longa, não dá tempo. A prova é curta, tira as chances dos alunos. Escreve muito, não explica. Explica muito, o caderno não tem nada. Fala corretamente, ninguém entende. Fala a "língua" do aluno, não tem vocabulário. Exige, é rude. Elogia, é debochado. O aluno é reprovado, é perseguição. O aluno é aprovado, "deu mole". É, o professor está sempre errado mas,se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!”

Certamente continuaremos errando e acertando. E lutando, todos os dias, para que os acertos superem os erros. Merecemos parabéns por isso!

105. Handicapes

Jornal de Cocal: 2005

Folheando uma apostila sobre Educação Especial nos deparamos com um neologismo interessante: handicapes. Recorremos a um dicionário de Língua Portuguesa e encontramos: “prova a que são admitidos cavalos de todas as classes, igualando-se as possibilidades de vitória pela diferença de peso” e “desvantagem”. Não satisfeitos, resolvemos verificar sua tradução num dicionário usado por estudantes brasileiros nas aulas de língua inglesa – nos parecia ser óbvio que essa palavra tinha essa origem – e encontramos: “deficiência física ou mental” e mais uma vez “desvantagem”. Para entender esse termo o dicionário de tradução foi mais útil que o de sinônimos.

Em virtude de tantas falhas humanas e tendo tanto por fazer em busca de uma vida mais digna, surgem grupos de pessoas que se identificam por terem em comum, problemas, objetivos e determinação para concretizar seus sonhos solidários. Uns lutam para salvar as florestas, outros pelos animais e há àqueles que se preocupam com os seres humanos marginalizados, doentes, drogados, portadores de necessidades especiais. No final das contas, todos ajudam a todos e em tudo!

Uma palavra que tem estado em voga nas revistas de educação, seminários e propagandas do governo, é inserção. Inserir... inserir... inserir e inserir. É tão fácil falar, mas tão complicado inserir! Pois essa ação representa mais do que colocar as crianças, ou mesmo os adultos, no lugar de devem estar e permanecer. É preciso dar condições para que sejam bem recebidas, principalmente, as portadoras de necessidades especiais, ou seja, aquelas com algum grau de deficiência física ou mental.

A mídia tem mostrado com freqüência propagandas que chegam a ser enganosas, mostrando que as escolas estão sendo preparadas para a receber alunos com necessidades especiais no ensino regular. A maioria dos educadores sabe dessas mudanças pela divulgação que se está fazendo e não porque foi preparada para enfrentar esses novos desafios. Há uma certeza entre os professores: “Não sei o que farei quando encontrar em uma sala de aula um aluno com uma dessas tantas deficiências que apresentam. Já acho difícil lidar com os normais. E, cadê o espaço físico adaptado?”.

Muitos pais têm dificuldade para enfrentar as limitações dos filhos e querem que a escola os coloque nas mesmas condições dos demais. Não é fácil lidar com as angústias que as famílias sentem diante de um quadro desconhecido que se pretende moldar, iluminar e exibir como algo rico e cheio de potencialidades. É importante vencer o preconceito, e para tanto, tem que haver mais investimentos em pesquisas científicas e trocas de experiências. Não dá pra acreditar que é possível ir longe, se nos limitamos a explicar o que significa handicapes.

O interessante é que hand significa mão. Nenhuma pesquisa, que almeja obter resultados práticos positivos, pode avançar qualitativamente se não contar com profissionais dispostos a se empenhar no trabalho e se não tiver a ajuda da família. Todos precisam dar uma mão no estudo e desvendamento das profundidades inerentes às handicapes!

104. Calculadora serve para pensar

Jornal de Cocal: 2005

Tenho uma vaga lembrança da primeira vez que vi uma calculadora. Eu queria mexer, mas não me atrevia “porque não era minha e podia estragar”, segundo meus pais. E, acrescentavam: “Isso é coisa de preguiçoso! Nunca vamos gastar dinheiro com essa porcaria que serve para estragar os alunos.” É claro que essa novidade estava muito distante dos bancos escolares, naquela época.

Depois de algum tempo, quando eu cursava o Magistério, via minhas colegas falando sobre algumas das funções que haviam descoberto. Minha curiosidade aflorava, porém, eu ainda não tinha uma dessas máquinas de calcular e me contentava em observá-las realizando operações com as teclas conhecidas e observando os resultados precisos e magicamente obtidos.

Passado mais um bom tempo, prestes a ter meu diploma de Licenciatura Plena em Matemática, tive um professor chamado Lenoar. Jamais esquecerei da caixa de calculadoras científicas que ele levou para a faculdade, numa certa manhã de sábado. Foi então que, aos vinte e cinco anos de idade, tive a chance de aprender a usar uma tecnologia que sempre admirei. Essa aula foi um marco na minha vida: desde então, tenho me dedicado a explorar os recursos das calculadoras e buscado conhecer maneiras inteligentes de aplicá-las na aprendizagem de matemática.

Tomo a liberdade de relatar um comentário que retirei de um vídeo elaborado pelo Ministério da Educação e intitulado “Fazendo matemática na sala de aula”. Um dos principais educadores do Brasil, Ubiratan Dambrósio, afirma:“Uma das coisas mais intrigantes no sistema escolar é a resistência dos professores à incorporação de tecnologia plena nas suas aulas. Há professores que resistem à utilização de calculadoras e insistem em se dar matemática achando que há alguma importância em colocar um número embaixo do outro e fazer uma adição, uma multiplicação. Isso na História da Humanidade foi um período muito curto e não foi essencial para a grande criatividade que a espécie humana tem mostrado desde a pré-história. O que é condizente à criatividade e vale à pena é a utilização total do que se tem disponível naquele momento. No momento que estamos vivendo hoje, o que é disponível: tecnologias de calculadoras, fliperama, TV, vídeo, computadores, e-mail, Internet. E tudo isso tem que ser incorporado na educação, principalmente na educação matemática que é uma educação que é parte do sistema escolar que deve apontar para o futuro, e o que deve instrumentar o indivíduo para entrar no futuro, para participar do mundo que está se delineando. Isso não se faz sem tecnologia.”

Um colega de profissão, disse-me, veementemente, num encontro de estudos: “Jamais deixarei meus alunos de 5a a 8a série usarem calculadora durante as aulas”. Tenho que respeitar sua opinião porque ele tem seus argumentos. No entanto, acredito que ele - como a maioria dos pais e profissionais da educação - defendem o uso de computadores, de vídeos educativos, de filmes, da Internet e de outros recursos tecnológicos. Então, porque discriminam a calculadora mesmo sabendo que mais importante do que fazer contas de maneira rápida e correta, é interpretar o problema e descobrir quais os passos para se chegar à solução? Por que não ficam sem essa maquininha na hora de fazer as contas do mês e de fechar as médias de suas turmas? Por que a utilizam para verificar quanto receberão de aumento? Por que todos têm uma em casa?

Acho que o medo de que se esteja “emburrecendo” as crianças quando as ensinamos a usar calculadoras, está na falta de conhecimento do potencial educativo dessa simples e barata “maquininha de calcular” que pode ser também, uma “maquininha de pensar”.

96. Hino Nacional Brasileiro (Parte II)

Jornal de Cocal: 2005

- Bom dia, João! Vamos continuar nossa conversa sobre o Hino Nacional?
- Será um prazer, Marieli. Esses dias, discutimos sobre o significado da primeira parte e agora, podemos falar da outra...
- Que começa dizendo que o brasileiro é vagabundo e rico.
- Você está maluca, é? Onde já se viu um hino falando um absurdo desses?
- Pois não diz que ficamos sempre deitados num berço luxuoso?
- Não. Esse sentido dado ao verso “deitado eternamente em berço esplêndido” seria injusto se fosse tomado ao pé da letra. Afinal de contas, o brasileiro não tem nada de preguiçoso; ao contrário, é um povo que trabalha muito, embora, ganhe pouco.
- Então, deveriam mudar o verso.
- É que poesia se faz com metáforas, minha amiga.
- A professora Daniela me ensinou o que é metáfora. Aprendi direitinho.
- É. O poeta quis dizer que o Brasil, nosso país, se estende sobre um território esplendido – esplendido quer dizer brilhante, resplandecente, luxuoso. E já que você aprendeu direito o que é metáfora, responda: porque nosso país está deitado em cima de um chão esplendido?
- Eu acho que nosso país estava deitado em cima de um chão forrado de outro, prata, diamante e esmeraldas.
- Isso tudo foi retirado daqui durante muitos anos.
- É verdade que em certos lugares distantes até oito quilômetros da costa brasileira se ouve o som do mar?
- Tanto é que o poeta cantou no Hino Nacional “ao som do mar e à luz do céu profundo”.
- Profundo? Céu profundo? Afinal de contas, o céu é pra baixo ou pra cima?
- O que se quer dizer com céu profundo é que estamos em baixo de um céu cheio de luz.
- Florão é uma flor grandona.
- Não, mas significa beleza. Florão é um ornamento de ouro e pedras preciosas, em forma de flor, geralmente aplicado em coroas de reis.
- O poeta achava o Brasil tão lindo assim?
- Foi o que ele quis dizer quando escreveu “fulguras, ou seja, brilhas, ó Brasil, florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo”.
- O que é um Novo Mundo?
- É a América. O Velho Mundo se refere à Europa, as terras do outro lado do mar.
- Acho muito lindos aqueles versos que falam que nossa terra é garrida, ou seja, alegre, vistosa, bonita.
- Falam também que os nossos risonhos campos têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida, no teu seio mais amores.
- Ah! Como eu queria poder viajar por este nosso país que é lindo demais! Eu queria visitar a Praia Mole, o Pantanal, o Amazonas, os lençóis maranhenses.
- Você sabe o que significa “o lábaro que ostentas estrelado”?
- Nem sei o que é lábaro.
- Lábaro era um estandarte do exército romano, uma bandeira.
- Ajudou, mas ainda não entendi direito.
- O poeta deseja que a Bandeira e as estrelas sejam um símbolo de amor eterno. As estrelas, na Bandeira Nacional, representam os Estados do Brasil.
- Tem até a de Santa Catarina?
- É óbvio que sim.
- Então deve ter vinte e seis estrelas na nossa bandeira?
- Tem vinte e sete, uma representa o Distrito Federal, Brasília. E o hino segue assim “e diga ao verde-louro dessa flâmula, paz no futuro e glória no passado.”
- Esse poeta era um militar?
- Acho que não. O que sei é que para escrever esse verso, ele se inspirou no verde que é símbolo que esperança e no louro – sinônimo de amarelo – que é o símbolo de triunfo, glória.
- Pelo que percebi o poeta expressa um desejo de que o louro, ou seja, o amarelo, dignifique as glórias alcançadas pelo Brasil no passado e o verde indique o caminho da esperança e de um futuro de paz.
- Uma paz que queremos tanto! Para isso esperamos que a clava forte da justiça seja erguida.
- Cruz credo! Você quer paz e fala em levantar uma arma? Clava é uma arma perigosa feita com um pedaço de pau mais grosso numa extremidade.
- Você acha essa arma perigosa? Ela não é nada perto das armas modernas.
- Na época de Hércules, era perigosa, sim. Foi com uma arma dessas que ele atacou a hidra de lama.
- Está bem, mas voltando ao assunto que interessa, o sentido dessa frase não é de guerra, é de luta, luta de um filho dessa terá que não foge de suas obrigações.
- Bom, nesse caso, eu sou uma filha dessa terra que não foge à luta, que trabalha por um mundo melhor, com mais amor, alegria e vida.
- Porque essa nossa terra é adorada.
- Entre tantas mil, és tu Brasil, ó Pátria Amada.
- Dois filhos desse solo, és mãe gentil.
- Pátria amada, Brasil!

95.Hino Nacional Brasileiro (Parte I)

Jornal de Cocal: 2005

- Bom dia, Marieli!
- Oi, Marcos Paulo. Onde vais com tanta pressa?
- Vou explicar o significado de uma música para uma turma.
- Uma música do Marlon e Maicon, por acaso?
- Sem ironias, por favor. Trata-se de uma música do Manoel Francisco da Silva.
- Não sei quem é esse cara que escreveu essa música. Aposto que ele nunca apareceu no Faustão.
- Ele não escreveu: fez a música. Quem fez a letra foi Joaquim Osório Duque Estrada.
- Hummmm... pelos nomes devem ser amigos daqueles caras que escreveram “A velha porteira” ou “Meu ipê florido, junto a minha cela, hoje vem à altura de minha janela...”
- Não. Você conhece a música da qual estou falando, mas não sabe direito o que ela quer dizer.
- Por quê? É em inglês?
- Não. Estou falando do Hino Nacional Brasileiro.
- Então... dá na mesma. Não entendo um monte de palavras, mas já decorei a letra.
- Se você quiser, te explico.
- Quero.
- A letra oficial do Hino Nacional foi cantada pela primeira vez no dia 6 de setembro de 1922, véspera do Centenário da Independência do Brasil.
- Nossa! Ela já existe a mais de duzentos anos?
- Duzentos anos? De 1922 para cá se passaram duzentos anos?
- Mais ou menos.
- Muito menos. Isso aconteceu a uns 80 anos.
- É. Um pouco menos.
- O Hino começa dizendo que “as margens plácidas - plácidas significa brandas, serenas, tranqüilas, pacíficas, calmas, mansas – do Ipiranga ouviram o brado retumbante – brado quer dizer grito e retumbante quer dizer que ecoa alto, que soa alto – de um povo heróico”.
- O que o posto Ipiranga tem a ver com a História?
- Ipiranga não é nome de posto de gasolina; é um pequeno rio que se situa em São Paulo.
- Maior ou menor do que o Rio São Bento, onde a Cristina aprendeu a nadar como um peixe?
- Isso eu não sei.
- Então você quer dizer que as margens desse rio escutaram um grito muito alto... As margens do rio têm ouvidos? Elas podem ouvir?
- Metaforicamente, podem ouvir, sim.
- O que quer dizer me-ta-fo-ri-ca-men-te.
- Pergunte para sua professora de Língua Portuguesa. Você já está abusando...
- Eu só quero entender!
- O grito ouvido foi “Independência ou morte”. Ali, naquele momento representado por D. Pedro I. O Hino Nacional segue “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos – fúlgido quer dizer que resplandece, brilha – brilha no céu da Pátria nesse instante”.
- Por quê? Antes do grito o sol não estava lá? Estava chovendo?
- Não, eles querem dizer que aconteceu algo de bom para a Pátria, para o Brasil. Você sabe de cor a próxima estrofe?
- Sei: “Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó Liberdade, desafia o nosso peito a própria morte!”
- Em outras palavras isso quer dizer que com coragem, determinação, conseguimos colocar-nos em condições de igualdade com Portugal e as demais nações independentes. Agora somos livres, nosso peito desafia a própria morte.
- É, ficamos livres de Portugal e não ficamos livres da fome, dos políticos trapaceiros, dos interesses internacionais, da violência, da educação pobre, etc.
- É, eu gostaria de saber se a nossa Pátria é amada e idolatrada – no sentido de querida, é claro.
- Salve! Salve!
- Você já olhou para o Cruzeiro do Sul?
- Aquelas cinco estrelas que formam uma cruz?
- Cinco estrelas que podemos ver a olho nu; essa constelação é formada, na verdade, por cinqüenta e quatro estrelas. O hino fala que a imagem do Cruzeiro do Sul resplandece no céu formoso, risonho e límpido que significa transparente, limpo. Um raio vívido de amor e de esperança desce até a terra.
- Que lindo! Parece que o Joaquim Osório Duque Estrada era um poeta que via uma chuva de amor e de esperança se derramando sobre o Brasil.
- Esse Brasil que é gigante pela própria natureza. É o quinto maior do mundo, entre outros cento e oitenta, em extensão territorial.
- Sabe que eu acho o meu país belo, forte, impávido e colosso.
- Bonito, nosso país sempre foi. Nosso povo é forte. Colosso, ou seja, grande, nem se discute. E Impávido, ou seja, que não tem medo de nada, eu não tenho certeza...
- Por quê?
- Porque o nosso povo parece ter medo de mostrar o seu valor e de buscar mudanças.
- Mesmo assim, o meu coração quer amar cada dia mais essa terra adorada, entre tantas outras mil. O Brasil é a mãe gentil desse solo, ou seja, de todos nós brasileiros.
- Tenho que ir! Outro dia continuamos a falar sobre a outra parte do hino.
- Certo. Até mais.

92. A paz e a fé da minha escola isolada

Jornal de Cocal: 2005

Houve uma época em que havia muitas escolas espalhadas pelas zonas rurais. Perto de cada uma delas, geralmente existia, um centro comunitário de madeira, uma igreja, um cemitério e um ponto de ônibus.
Devido às distâncias entre os órgãos responsáveis pela educação e as unidades escolares, estas, recebiam o nome de isoladas. Perceberam que esse termo não soava bem, politicamente, pois dava a idéia de que eram abandonadas pelos governos – embora não desse pra negar que retratasse a realidade. Enfim, resolveram rebatizá-las com a denominação de multisseriada: multi, vem de muitos e seriada, de séries. Sendo assim, devido às particularidades que lhe eram conferidas, justificaram que era conveniente fazer essa pequena alteração.
A maioria das entidades educacionais da época era freqüentada por aproximadamente quarenta alunos, divididos nas quatro turmas do primário, que receberam a pouco mais de dez anos uma nova terminologia para designá-las: séries iniciais do ensino fundamental. Os estudantes da mesma série sentavam numa única fileira ou pelo menos, próximos uns dos outros devido à variação de alunos por série. O quadro-negro era dividido por um traço de giz que separava as atividades de cada grupo preparadas por uma única professora, que geralmente residia na própria comunidade.
Lembro-me de que, a professora precisava atender simultaneamente às diversas turmas. Pela demora, especialmente, com os da classe de alfabetização, tínhamos que reler as histórias do livro didático, em silêncio, dezenas de vezes. Todos obedeciam e não ousavam contestar a ordem recebida, apesar de ser cansativa e desmotivadora, aquela leitura repetitiva. Depois que a professora “tirava a leitura em voz alta”, respondíamos o questionário e fazíamos os exercícios conforme o modelo dado.
As alunas que primeiro terminassem as atividades ajudavam no preparo da merenda, a organizar os pratos e talheres, a lavar a louça e a encher o filtro de água. Ao final da aula os alunos se revezavam para varrer e lustrar a sala. Fazer essas coisas era uma festa!
A merenda que restava era dada para os alunos levarem para casa. Muitas vezes, levei macarrão e uma bebida preparada com leite em pó e chocolate, dentro da própria panela em que era preparada, por mais de dois quilômetros, a pé. Era uma alegria chegar em casa, mesmo com os braços doloridos, e entregar para minha mãe aquela comida que tinha um sabor inexplicável para nós.
A morte do Papa João Paulo II movimentou o mundo e trouxe recordações da época em que éramos mais do que católicos apostólicos romanos não-praticantes. Sentimos que nosso lado espiritual se perdeu no decorrer dos tempos e que a modernidade substitui valores que embora tradicionais, nos moldaram para o bem. Enquanto, os repórteres brasileiros passavam as informações diretamente de Roma, eu me emocionava lembrando das orações que todos os dias repetíamos dentro de uma humilde escola azul e amarela perdida numa curva de estrada de chão. Lá, rezávamos o Pai-Nosso, a Ave-Maria e Glória ao Pai, no início, depois do recreio e no final de cada dia de aula. Eu adorava os dias em que as missas coincidiam com o horário da aula porque saímos da sala para ir à igreja e ouvir as palavras do padre, que para nós era realmente um dos representantes de Deus na terra.
Independente da fé religiosa e da opinião que cada pessoa tem a respeito das sagradas escrituras, tenho a certeza absoluta de que ninguém recebeu maus ensinamentos por tê-la vivenciado quando criança dentro da escola. Sinto saudade daquele tempo que aproveitei para aprender a ser gente! Sinto falta da paz e da fé da minha escola isolada, ou melhor, multisseriada.

88. Coerências e Incoerências

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei Nº 9394/96 – prevê no artigo 24 que a verificação do rendimento escolar observará, dentre outros critérios a “avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”. E também exige “a freqüência mínima de setenta e cinco por cento do total de horas letivas para aprovação”.

O que são esses aspectos qualitativos? A Resolução Nº 23/2000 que estabelece diretrizes para a avaliação do processo ensino-aprendizagem, nos estabelecimentos de ensino de Educação Básica e Profissional Regular, integrantes do Sistema Estadual de Educação do Estado de Santa Catarina, esclarece em seu artigo 5º: “Na apreciação dos aspectos qualitativos deverão ser consideradas a compreensão e o discernimento dos fatos e a percepção de suas relações; a aplicabilidade dos conhecimentos; a capacidade de análise e de síntese, além de outras habilidades intelectivas que advierem do processo em atitudes demonstradas”. É uma linguagem extremamente técnica e abrangente, mas que todo profissional comprometido com sua função pedagógica, consegue interpretá-la sob o ângulo da disciplina em que atua. Ou seja, os olhares da Língua Inglesa e Portuguesa, das Artes, da Matemática, da Educação Física, da História, da Geografia, das Ciências, da Sociologia e do Ensino Religioso, são específicos. É devido à importância de pôr em prática essa teoria que participamos de encontros de formação, fazemos cursos de aperfeiçoamento, lemos revistas especializadas, refletimos sobre nossas vivências e estudamos o próprio conteúdo que devemos ensinar.

O que são os aspectos quantitativos? São notas ou conceitos descritivos - resultantes das avaliações que visam conhecer o aproveitamento de cada aluno - atribuídas pelo professor da série ou disciplina e analisada em Conselho de Classe. É por isso que trimestralmente a equipe docente se reúne, depois ter dedicado muitas horas corrigindo provas, analisando trabalhos e observando as dificuldades e os progressos dos discentes sob sua responsabilidade.

Essa mesma resolução, em seu artigo 6º, prevê que ter-se-ão como aprovados quanto ao aproveitamento no Ensino Regular Fundamental os alunos que alcançarem os níveis de apropriação de conhecimento que no seu registro em notas ou conceito descritivo, não seja inferior a 70% (setenta por cento) dos conteúdos efetivamente trabalhados por disciplina ou aqueles com aproveitamento inferior ao previsto anteriormente e que submetidos à avaliação final, se for adotada pela Unidade de Ensino, alcançarem 50% (cinqüenta por cento) em cada disciplina.

Até essa linha, fiz recortes das leis que me interessam porque tem algo que me perturba há mais de quinze anos quando eu ainda era uma das alunas do Curso de Magistério, do Colégio Estadual Olavo Rigon, em Concórdia, no oeste catarinense. Além disso, me sinto uma verdadeira idiota todo final de ano quando faço as provas finais com alguns dos alunos que “não passaram direto”, ou seja, tiveram uma média anual inferior a sete, porém superior ou igual a cinco. Vou explicar os motivos, que na minha modesta opinião, representam “o cúmulo da incoerência”.

Inicialmente, se a média anual do aluno é igual ou superior a cinco, ele já está aprovado porque prevalecerão os resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais. Aí, vem a tradicional justificativa coerente: “Uma prova não avalia o real conhecimento do aluno. Pode ser que nesse dia ele não esteja bem de saúde, fique nervoso, sinta-se pressionado ou dê um branco. Quem de nós nunca passou por isso que atire a primeira pedra! Se durante o ano ele atingiu essa média, merece ser aprovado, afinal de contas não é justo que uma prova final prevaleça sobre os resultados ao longo do período.” Já entendi e concordo plenamente. Então, porque aplicamos as provas para aqueles que já atingiram a média anual igual ou superior a cinco? Sinceramente, me sinto uma palhaça onde quem ri por último é o próprio aluno que pensa que passou por mérito, mas foi por força da lei. E os pais, sabendo que a média é sete, pela falta de informação que de certa maneira, é propositalmente ocultada, acreditam que seus filhos se superaram.

E o que mais me dói é que todos os anos, recebemos da Secretaria de Educação uma tabela com as notas que os alunos com médias anuais dentro da faixa de 3 a 6,9 devem tirar. O cálculo é feito com base numa fórmula que aplica uma média ponderada onde à média anual se atribui peso sete e à nota da prova do exame, peso três; e até hoje, não consegui que alguém me explique essa lógica, se é que existe. Já passei por situações onde eu informei corretamente ao Joãozinho que ele precisava tirar no mínimo 7,3 na prova, pois sua média anual era 4. E, também, disse ao Paulinho – apesar de querer lhe dizer a verdade - que ele deveria tirar no mínimo 4,3 porque sua média anual correspondia a 5,3.
Continuando meu desabafo... Os alunos que têm média anual abaixo de três também devem realizar as provas finais, sendo que para serem aprovados, precisam tiram nota superior a dez. Agora, eles são os palhaços e nós rimos por último!

Por que fazemos tudo isso sem protestar? Porque sendo assim, não nos incomodaremos com a justiça e não teremos o trabalho de discutir as mudanças necessárias? Talvez, seja porque nos excluímos do processo de avaliação no que diz respeito à elaboração das leis. Apesar de muitos profissionais entenderem minha indignação, acredito que “as fichas ainda não caíram direito”.

Já ouvi muitos comentários, como este: “Se os alunos souberem que na verdade a média é cinco, estudarão menos ainda. Eles não precisam saber disto, e nem os pais”. E, apenas uma única vez alguém deu uma resposta sensata: “Como podemos falar em preparar o aluno para exercer a cidadania se omitimos seus próprios direitos enquanto estudantes?”

Estou decepcionada comigo mesma por ter deixado passar tanto tempo para expressar minha opinião em relação a esse assunto. Tenho tentado fazer isso desde o dia em que uma colega de trabalho, durante o Conselho de Classe realizado após as provas finais, não permitiu que eu levasse adiante o assunto, dizendo: “Essa lei é para ser discutida lá em Florianópolis, no Conselho Estadual de Educação. Vamos ao que interessa: ver quem passou ou reprovou. Afinal, o tempo passa rápido...”

75. A escola continua grávida

Jornal de Cocal: 11 de novembro de 2004

São visíveis as semelhanças entre a escola e a barriga de uma mulher grávida. A comparação pode resultar em múltiplas interpretações, porém é inegável de que é dentro dela que se inicia o desenvolvimento do coração, do cérebro, dos ossos, do sangue, dos olhos, dos ouvidos, da língua, do nariz e da pele de gerações que são influenciadas pelo meio e ao mesmo tempo o transformam.

Quase todas as escolas se parecem com uma adolescente que engravidou num momento sublime e depois foi abandonada por quem mais deveria lhe dar apoio para manter sua estrutura. Porém, sempre haverá do seu lado pessoas que a amam e fazem o que podem para mantê-la feliz, bonita, forte e sonhadora. Por uma lei da dinâmica vida social, quando ela perde alguns de seus parceiros, surgem outros que mesmo com a maior boa vontade requerem uma fase de adaptação, e às vezes, demoram muito para entender suas necessidades. Não adianta cobrar dessa “menina carente” a falta de um planejamento familiar que de repente nunca soube que existia ou de um projeto politicamente correto cheio de propostas pedagógicas eficazes.

Os médicos da educação, ao contrário dos da saúde, não gostam de prescrever receitas e criticam maldosamente um encaminhamento errado, dado pelo colega de profissão. Preferem sugerir procedimentos específicos, adequados e dosados para cada caso. Alertam que se um remédio não fizer efeito, é importante ser substituído imediatamente. Dizem que o melhor medicamento se encontra nas hortas da própria comunidade e que devemos ouvir seus habitantes porque geralmente, eles sabem o que precisamos fazer. As doenças que mais atacam as famílias dos alunos são conhecidas pelas suas vivências e estas, esperam que a ciência não desista de encontrar o antídoto dos venenos injetados diariamente em suas veias.

Este estado divino de descobertas nem sempre é evidente. Quando o prazer não está presente pode-se sentir muita vontade de ir ao banheiro e vomitar o alimento que não está fazendo bem e causando dores abdominais e de cabeça. Também, há a dificuldade de comer beterraba e espinafre, mesmo sabendo que é fundamental por conter o ferro que evita a anemia. Por causa disso, há uma “junta de educadores” pesquisando chás que tranqüilizem e estimulem os sistemas formados pelo corpo docente que apesar de estressado e cansado quer ser o princípio ativo.

Todo ser humano que for privado de ter o colo de uma mãe sentirá em seu peito uma lacuna a ser preenchida e a sensação de não ser completo. Mesmo que seja filho de uma pessoa inexperiente e despreparada para a função, essa relação é a base da sua formação.

A gravidez da escola continua, mesmo depois do parto. Portanto, ela exige cuidados eternos!

74. Por trás de uma prova

Jornal de Cocal: novembro de 2004

Uma prova, normalmente, é elaborada para que até o aluno mais “demorado” a responda em quarenta e cinco ou noventa minutos, dependendo do horário das aulas. Pela diversidade de ritmos pessoais, que pode ser percebida em qualquer grupo, sempre há os que respondem as questões antes da metade do tempo previsto, os que demoram porque não sabem ou se desconcentram facilmente e os que são cautelosos e aproveitam cada segundo.

Muitas vezes, o aluno que respondeu tudo ou não sabe mais nada, vira a folha e começa a rabiscar, escrever ou desenhar. Já encontrei coisas interessantes atrás das provas.

Uma menina, extremamente tímida, insegura, que só falava quando solicitada, com certa dificuldade de aprendizagem, fez algo que jamais esquecerei: desenhou o Smilingüido de joelhos, aos prantos e rezando. Imaginei que ela estivesse expressando seus sentimentos e desde então, passei a lhe dar mais atenção. Acho que preciso dizer quem é esse Smilingüido... Pelo que me consta, é uma formiguinha religiosa, comercializada em cadernos, agendas, penais e adesivos com mensagens bíblicas interessantes e positivas.

Essa onda de adesivos que atraí, especialmente as meninas, tem colorido até as nossas provas. De vez em quando aparecem “florzinhas, coraçõezinhos, borboletinhas, meninas super-poderosas, Sandy e alguns heróis com cara de bandido”. Recebi até uma lesma, que na minha opinião, estava vomitando a palavra prova que foi acrescentada ao original.

O pensamento das crianças pode viajar até os cemitérios, pelo menos foi o que aconteceu com uma garota que considero participativa e responsável. Ela desenhou uma lápide com a inscrição: “Karla ê 1992 † 2004”. E ainda, me deixou o seguinte recado: “É, professora, se eu tirar nota ruim, meu pai me mata”. Pensei: “Que bom que ele agiria assim! É sinal de que se preocupa contigo e cobra resultados”.

Enquanto uns vão direto ao “mundo da lua”, outros fazem um caminho mais próximo: hospital, clínica, Casa das Gaitas, Casa Benedette. O que será que esse garoto planejava? Como sei que ele adora música e detesta estudar, posso acertar porque estava na Rua Henrique Lage.
Há aqueles que buscam ajuda celestial: “Senhor Deus, neste exato momento coloco meus problemas em suas mãos, pois confio em ti que tudo pode e vê.” Sem querer ser maldosa, mas já conhecendo a preguiça que acomete este ser, respondo: “Apesar de todo o poder que Ele tem, está vendo sua falta de vontade, portanto, não irá resolver seus problemas, principalmente os de matemática”.

Poderíamos continuar esse assunto, mas não agüento mais ficar sentada diante desse computador, pensando, relendo pra ver se ficou bom, imaginando que nota vão me dar, olhando o sol brilhar lá fora e querendo sair pra rua. Vou completar com um “Boa Sorte!” e chega por hoje.

67. Se aprende na escola

Jornal de Cocal: 22 de setembro de 2004

Um questionário elaborado com o objetivo de pesquisar dados para uma monografia, trazia a seguinte pergunta: “Onde você aprendeu Geometria?” A maioria dos alunos deu uma breve resposta: “Na escola”. Teve quem foi mais específico: “Nas aulas de matemática e de artes”. Mas, uma resposta chamou a atenção porque dizia que quem não aprendeu geometria na escola, aprendeu com alguém que já estudou esse assunto quando era estudante.” Percebe-se, que há coisas que parecem ser conhecidas somente por aqueles que freqüentaram um banco escolar. É por isso, que a responsabilidade pela formação humana exige muito dos educadores.

Dada a importância da função social da escola e levando em consideração a confiança dos pais na capacidade dos profissionais da educação para fazer a diferença na vida de seus filhos, não podemos decepcioná-los.

É doloroso para qualquer professor, que dá o máximo de si, descobrir que sua prática não está apresentando bons resultados e que seus esforços são em vão porque sua bagagem está cheia de coisas ultrapassadas e sua metodologia é inadequada. Todavia, é sublime, a vontade de superar as limitações e encarar novos desafios, se estes, “forem para o bem do povo e a felicidade geral da nação”.

O renomado educador e escritor de livros didáticos de matemática, Antonio Lopes Bigode, escreveu um artigo que trata do “professor do século XX, ensinando para jovens do século XI com currículo do século XIX”. Ele tenta alertar que há muita coisa para ser mudada. Os reajustes necessários só acontecerão quando a coragem for maior que o comodismo ou assim que isso tudo ficar insustentável devido às fortes mudanças na atual conjuntura social.

Nossas crianças e jovens circulam todos os dias pelos corredores que conduzem às salas que os aguardam para ficarem durante quatro horas por dia. Lá, eles recebem informações, ordens, pedidos, estímulos, explicações, conselhos, entre tantas coisas. Seja aritmética, álgebra ou geometria os conteúdos em questão, cada um deve ser bem explorado para mostrar seu valor na construção dos saberes de cada ser humano. E essa qualidade é que fará a grande diferença! Mas não é nada fácil, apesar de ser extremamente prazeroso.

66. Durante uma prova

Jornal de Cocal: 15 de setembro de 2004

Que silêncio infernal! Detesto ficar sentada nessa mesa, cuidando para que nenhum aluno se atreva a colar da prova do colega. Se ao menos eu pudesse aproveitar o tempo para ler o jornal do dia ou uma revista, tranqüilamente. Como não dá pra confiar, fico aqui, de “antena ligada”,

Daqui a pouco alguém vai perguntar que dia é hoje (escrevi no quadro), se pode responder à lápis (já falei que quero o resultado à caneta, o procedimento não importa), pedir licença para emprestar uma borracha ou tirar uma folha em branco do caderno, pois precisa de um rascunho. O Paulo já está riscando a carteira pra fazer as contas, não vou falar nada pra não me estressar.

Sem demora um aluno vai reclamar porque não está enxergando direito um número. Já pedi que providenciem um mimeógrafo novo e matrizes de qualidade. Não adianta, enquanto esse governo não valorizar o ensino, continuaremos com os recursos do “tempo da pedra”.

Se minha vó viesse conhecer minha escola não estranharia nada; ao contrário, do que acontece quando vai à minha casa e não quer usar o microondas, não troca o canal da televisão pelo controle remoto, se recusa a atender o telefone, prefere bater o bolo à mão, pergunta se posso mandar uma cartinha pelo computador para saber como está uma de suas sobrinhas preferidas, chama o aparelho de CD de toca-discos e fica perplexa com tantas outras tecnologias que vê na rua.

Não suporto ver essa criançada mascando chiclete o tempo todo. Daqui a pouco vou passar com o lixeiro...

Eu sabia que um deles ia me perguntar sobre uma das questões de multiplicação e divisão de frações. Eu respondi que não sei a resposta, sempre faço isso durante as provas: evita que insistam. Eles pensam que estou mentindo, mas às vezes, estou sendo honesta, como agora. Eu não sei porque 2/9 x 4/5 :1/3 dá 8/15, ou melhor, não visualizo essa questão como solução de um problema que realmente exista e faça sentido. Felizmente, não sou obrigada a mostrar sua aplicação prática e encontrei uma calculadora capaz resolver esses tipos de operações, ou seja, num toque deixo meu gabarito pronto.

Como está demorando bater o sinal! Preciso ir pra casa lavar roupa e depois corrigir essas provas e uma pilha de trabalhos.

O Marcos fica olhando para as paredes como uma “mosca tonta”. E o tempo passa... E o pior de tudo é que legalmente, ele tem direito a uma prova de recuperação. Vê se dá pra agüentar!

A Marcela já detonou com o lápis de tanto mordê-lo. Se o gastasse para fazer as tarefas, não estaria tão nervosa.
Vou circular um pouco pelos corredores pra ver se essa chatice acaba mais rápido.

65. “Ela não fala com o cara”

Jornal de Cocal: 8 de setembro de 2004

Numa tarde de folga fui ao laboratório de informática da minha escola para escanear fotografias de meus alunos que iriam se formar no Ensino Médio. Eu pretendia montar uma bela apresentação para o dia da formatura deles, por isso, analisava cada foto atenciosamente e projetava os detalhes com cuidado. De repente, parei com o que estava fazendo para conversar com uma colega. Ela sabia que naquela época eu estava “abraçando o mundo com dois braços” e para dar conta de meus compromissos, vivia absorta em meus pensamentos.
Apesar de gostar de conversar com as pessoas, não costumo falar sem necessidade ou gastar tempo especulando sobre suas vidas, mesmo que delicadamente. Às vezes, chego ao extremo de evitar palavras que não acrescentam nada numa frase e me irrito com pessoas repetitivas. Mas, não sabia que já havia quem sem se referisse a mim, como: “Qual professora de matemática? Aquela que não fala?” Isso me fez refletir sobre o que os outros esperam de nós e a importância de estarmos nos lapidando todos os dias para corresponder a essas expectativas e fazer a diferença.
Numa manhã de sábado, um outro fato mexeu ainda mais comigo. Eu estava atravessando uma praça, no centro da cidade, quando “ouvi sem certeza”, um menino me perguntando: “Quer engraxar a bota, professora?”. Olhei para aquele garoto negro de cabelos amarelos e busquei sua identidade nos arquivos de minha memória escolar, enquanto respondia: “Não, obrigada.” Como não o reconheci, segui pensando se realmente era comigo que ele falava e tive a confirmação ao ouvir o que aquela criaturinha disse aos amigos: “Essa professora, não é que ela é chata, é que ela não fala com o cara.” Meu coração bateu mais forte, senti algo estranho e percebi que como adoro minha profissão, tenho que mudar, pois a missão de qualquer educadora vai além dos conteúdos da disciplina que ministra. Mesmo assim, não olhei para trás.
Um dia, antes de entrar numa padaria para comprar pão e leite, deixei uma moeda cair. Abaixei-me para procurá-la e vi o pé de alguém que apontava onde ela estava, dizendo: “Aqui, professora.” Olhei para o moço que sorriu pra mim e desapareceu na multidão. Acho que sei onde e quando eu o conheci. Acho, não tenho certeza... Ele deve se lembrar muito bem e talvez, tenha uma opinião ao meu respeito que eu deveria saber, mesmo que doesse no peito. Se eu tivesse me aproximado mais dele, poderia me lembrar até do seu nome.
O grande desafio que tenho, agora, é saber falar com as pessoas.