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domingo, agosto 27, 2006

66. Durante uma prova

Jornal de Cocal: 15 de setembro de 2004

Que silêncio infernal! Detesto ficar sentada nessa mesa, cuidando para que nenhum aluno se atreva a colar da prova do colega. Se ao menos eu pudesse aproveitar o tempo para ler o jornal do dia ou uma revista, tranqüilamente. Como não dá pra confiar, fico aqui, de “antena ligada”,

Daqui a pouco alguém vai perguntar que dia é hoje (escrevi no quadro), se pode responder à lápis (já falei que quero o resultado à caneta, o procedimento não importa), pedir licença para emprestar uma borracha ou tirar uma folha em branco do caderno, pois precisa de um rascunho. O Paulo já está riscando a carteira pra fazer as contas, não vou falar nada pra não me estressar.

Sem demora um aluno vai reclamar porque não está enxergando direito um número. Já pedi que providenciem um mimeógrafo novo e matrizes de qualidade. Não adianta, enquanto esse governo não valorizar o ensino, continuaremos com os recursos do “tempo da pedra”.

Se minha vó viesse conhecer minha escola não estranharia nada; ao contrário, do que acontece quando vai à minha casa e não quer usar o microondas, não troca o canal da televisão pelo controle remoto, se recusa a atender o telefone, prefere bater o bolo à mão, pergunta se posso mandar uma cartinha pelo computador para saber como está uma de suas sobrinhas preferidas, chama o aparelho de CD de toca-discos e fica perplexa com tantas outras tecnologias que vê na rua.

Não suporto ver essa criançada mascando chiclete o tempo todo. Daqui a pouco vou passar com o lixeiro...

Eu sabia que um deles ia me perguntar sobre uma das questões de multiplicação e divisão de frações. Eu respondi que não sei a resposta, sempre faço isso durante as provas: evita que insistam. Eles pensam que estou mentindo, mas às vezes, estou sendo honesta, como agora. Eu não sei porque 2/9 x 4/5 :1/3 dá 8/15, ou melhor, não visualizo essa questão como solução de um problema que realmente exista e faça sentido. Felizmente, não sou obrigada a mostrar sua aplicação prática e encontrei uma calculadora capaz resolver esses tipos de operações, ou seja, num toque deixo meu gabarito pronto.

Como está demorando bater o sinal! Preciso ir pra casa lavar roupa e depois corrigir essas provas e uma pilha de trabalhos.

O Marcos fica olhando para as paredes como uma “mosca tonta”. E o tempo passa... E o pior de tudo é que legalmente, ele tem direito a uma prova de recuperação. Vê se dá pra agüentar!

A Marcela já detonou com o lápis de tanto mordê-lo. Se o gastasse para fazer as tarefas, não estaria tão nervosa.
Vou circular um pouco pelos corredores pra ver se essa chatice acaba mais rápido.

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