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sábado, agosto 19, 2006

11. Passado irrecuperável

Jornal de Cocal: 2003

Puxa a cordinha da campainha do ônibus interurbano para avisar que chegou ao seu destino. Desembarca, observando atentamente o lugar de onde partira há 25 anos. Tenta atravessar a BR que antes da fama era um caminho desnivelado e desconhecedor de cheiro de pneus. Casas de alvenaria substituiram as enormes moradias de arquitetura italiana, construídas com tábuas largas, porão e área espaçosa. Um matagal cresce no lugar das roças de milho. E plantaram fumo onde já houvera muito feijão. Porcos residem em hotéis iluminados, arejados, com água encanada, refeição servida e inclusive ouvem um programa de rádio de uma emissora qualquer para que acalmem seus ânimos e não causem brigas sangrentas. O disputado pé de butiá desapareceu. Aquelas famosas visagens foram esquecidas através dos tempos. O cemitério está mais lotado e apesar da função, mais bonito. Passa um caminhão carregado de frangos, deixando no ar um cheiro horrível, porém, conhecido.
Cada passo o aproxima mais da pessoa que veio visitar. Algumas reformas, mas a casa continua sendo a mesma. Bate palmas com certo receio por passar da meia-noite e porque desejando fazer uma surpresa não avisou que voltaria. Mentira... Não teve coragem de ser rejeitado por quem abandonou e sentiu medo de não poder provar seu arrependimento.
Um espelho de sua juventude abre a porta. Reflete uma expressão de dor e cansaço, desculpando-se, dizendo que seu dia foi triste, pois perdeu a única pessoa que por ele teve amor, respeito e dedicação, antes mesmo de perguntar o que o estranho desejava.
Imagens do passado mescladas com o desespero repentino, apertam-lhe o coração. Afasta-se daquele rapaz covardemente, outra vez, sem dar-lhe explicação.
O moço, ferido com os últimos acontecimentos, volta para a cama sem dar importância ao ocorrido. Tenta dormir, apesar de estar inconformado por não ter ouvido da mãe uma única palavra que pudesse ser uma pista para um dia poder encontrar o homem misterioso que o gerou naquele adorável ventre. Será que um dia esse segredo se revelará?
Tem alguém batendo à porta...

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