Jornal de Cocal: 2003
A primeira vez que João Víctor viu Ângela foi numa noite chuvosa, num bairro perigoso, sentada no encosto do imundo banco da parada de ônibus, em frente a um bar de péssima aparência. Ela era uma garota magrela, de cabelos castanhos e longos. O horário, o uniforme, os cadernos e a amiga demonstravam que estava gazeando aula. Exibindo um sorriso perfeito, conseguiu lhe vender dois passes de transporte.
Minutos depois, ao entrar no carro de um amigo, ele a viu novamente, do outro lado da rua, espalhando fumaça e maresia no ar. Aquele rosto angelical, perdendo-se num mundo contrastante, jamais lhe saiu completamente das lembranças.
A segunda vez que João Víctor viu Ângela, deixou-o estranhamente chocado. Estava usando roupas pretas, curtas, decotadas e portando celular. Ia conversar com a garota, mas ela se afastou, partindo no carro de um empresário do tráfico, conhecido e intocável.
A terceira vez que João Víctor viu Ângela, foi quando ela dançava nua sobre as mesas de uma casa noturna conhecida como Madrugada. O corpo quase perfeito, acompanhava o ritmo da música, os cabelos estavam descoloridos sorriso e os movimentos claramente atrapalhados pelo álcool.
A quarta vez que João Víctor viu Angela foi quando ela entrou em seu carro, fazendo-lhe carícias sensuais e dizendo-lhe os preços promocionais. Reconhecendo-a, desistiu do programa, assustado. A prostituta, sem entender nada, saiu do carro perguntado se ele desejava Carol, um travesti que sempre a acompanhava nas curtas esperas da Avenida. Naquela noite, pagou uma multa por dirigir em alta velocidade sem perceber.
A quinta vez que João Víctor viu Ângela, foi quando ela fazia faxina no escritório em que trabalhou até se aposentar. Demorou muito para descobrir de onde a conhecia, pois estava gorda, não tinha todos os dentes, o rosto extremamente marcado pela química usada para atravessar centenas de noites imprevisíveis perdera sua beleza, as unhas estavam cortadas e discretamente pintadas e o andar cansado. Falava veementemente sobre sua fé em Deus, parecia uma religiosa exemplar. Sentia saudades da filha internada num albergue e doía-lhe profundamente saber que era rejeitada como mãe. Apesar das proibições médicas e de sua igreja, fumava duas carteiras de cigarro por dia. Estava doente... doente do corpo, doente da vida, doente da alma; arrependida pelo que fez com seu corpo, durante a maior parte de sua vida, estraçalhando sua própria alma.
A última vez que João Víctor viu Ângela, foi agonizando num leito de hospital por causa de uma doença sexualmente transmissível. A enfermeira o interrogou para saber se conhecia algum familiar da jovem senhora. Respondeu que não, mas estava disposto a ajudar.
Pouco tempo depois, ele foi solicitado para auxiliar no enterro. Encaminhando os devidos papéis, a vida lhe prega o maior castigo possível. João Víctor descobre a idade exata e o nome da mãe de Ângela. Sente uma dor que a eternidade é incapaz de apagar e descobre que talvez até Deus não deseje perdoar seu ato de omissão...
A primeira vez que João Víctor viu Ângela foi numa noite chuvosa, num bairro perigoso, sentada no encosto do imundo banco da parada de ônibus, em frente a um bar de péssima aparência. Ela era uma garota magrela, de cabelos castanhos e longos. O horário, o uniforme, os cadernos e a amiga demonstravam que estava gazeando aula. Exibindo um sorriso perfeito, conseguiu lhe vender dois passes de transporte.
Minutos depois, ao entrar no carro de um amigo, ele a viu novamente, do outro lado da rua, espalhando fumaça e maresia no ar. Aquele rosto angelical, perdendo-se num mundo contrastante, jamais lhe saiu completamente das lembranças.
A segunda vez que João Víctor viu Ângela, deixou-o estranhamente chocado. Estava usando roupas pretas, curtas, decotadas e portando celular. Ia conversar com a garota, mas ela se afastou, partindo no carro de um empresário do tráfico, conhecido e intocável.
A terceira vez que João Víctor viu Ângela, foi quando ela dançava nua sobre as mesas de uma casa noturna conhecida como Madrugada. O corpo quase perfeito, acompanhava o ritmo da música, os cabelos estavam descoloridos sorriso e os movimentos claramente atrapalhados pelo álcool.
A quarta vez que João Víctor viu Angela foi quando ela entrou em seu carro, fazendo-lhe carícias sensuais e dizendo-lhe os preços promocionais. Reconhecendo-a, desistiu do programa, assustado. A prostituta, sem entender nada, saiu do carro perguntado se ele desejava Carol, um travesti que sempre a acompanhava nas curtas esperas da Avenida. Naquela noite, pagou uma multa por dirigir em alta velocidade sem perceber.
A quinta vez que João Víctor viu Ângela, foi quando ela fazia faxina no escritório em que trabalhou até se aposentar. Demorou muito para descobrir de onde a conhecia, pois estava gorda, não tinha todos os dentes, o rosto extremamente marcado pela química usada para atravessar centenas de noites imprevisíveis perdera sua beleza, as unhas estavam cortadas e discretamente pintadas e o andar cansado. Falava veementemente sobre sua fé em Deus, parecia uma religiosa exemplar. Sentia saudades da filha internada num albergue e doía-lhe profundamente saber que era rejeitada como mãe. Apesar das proibições médicas e de sua igreja, fumava duas carteiras de cigarro por dia. Estava doente... doente do corpo, doente da vida, doente da alma; arrependida pelo que fez com seu corpo, durante a maior parte de sua vida, estraçalhando sua própria alma.
A última vez que João Víctor viu Ângela, foi agonizando num leito de hospital por causa de uma doença sexualmente transmissível. A enfermeira o interrogou para saber se conhecia algum familiar da jovem senhora. Respondeu que não, mas estava disposto a ajudar.
Pouco tempo depois, ele foi solicitado para auxiliar no enterro. Encaminhando os devidos papéis, a vida lhe prega o maior castigo possível. João Víctor descobre a idade exata e o nome da mãe de Ângela. Sente uma dor que a eternidade é incapaz de apagar e descobre que talvez até Deus não deseje perdoar seu ato de omissão...
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