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sábado, agosto 26, 2006

28. As cinco Marias

Jornal de Cocal: 2003

Já ouvi dizer que quando há duas pessoas na mesma casa com o nome igual, “se batiza um burro”. E quando há cinco irmãs com o mesmo nome? Pois isso aconteceu numa cidade mineira - mineira de Minas Gerais e não de uma região que extrai carvão - onde um pai resolveu batizar todas as filhas com o nome de Maria.
Maria José era a mais velha, trabalhava muito, cuidada da limpeza e do preparo da comida, quando saia para picar lenha no terreiro da casa, ligava o som do rádio o mais alto que podia e era um símbolo de felicidade para os vizinhos.
Maria do Carmo era muito tristonha, sentia a falta da mãe e desconhecia o fato de que um dia ela abandonou toda a família para “fugir” com um cearense e ir morar no Rio de Janeiro. Atormentava a todos querendo compreender porque seu pai não pôde impedir a partida da esposa que amou por tantos anos.
Maria Helena era a mais sonhadora de todas. Vivia correndo pelos caminhos abertos no meio da mata que circundava sua rústica casinha de madeira. Saia para buscar flores, chás, água, etc. Passava horas deitada sobre as imensas pedras cobertas de musgos e umedecidas pelos respingos de água que jorravam por um minúscula cachoeira. O céu estrelado ou os raios do sol que conseguiam encontram uma fresta entre os galhos das árvores, transformaram aquele espaço num mundo mágico e repleto de paz.
Maria da Aparecida que passou a se chamar Maria das Graças no dia em que foi registrada no cartório era uma menina rebelde, não gostava de brincar com outras crianças, detestava prestar favores, desarrumava tudo o que encontrasse em ordem, respondia grosseiramente todas as perguntas, sujava propositalmente as roupas estendidas no varal, jogava pedras nos gatos e chorava muito quando percebia que já anoitecia e seu querido papai não voltara da lavoura de café.
Maria das Graças que passou a se chamar Maria Aparecida no dia em que foi registrada no cartório, era a mais nova das irmãs, sua quietude a tornava um “fantasminha”, por ser silenciosa ouvia coisas que não deveria saber, sua inocência desmedida a tornou vítima dos erros dos outros e sua bondade fazia despontar um caráter admirável.
Certa noite, quando todas dormiam, o pai chegou em casa cansado e ficou ansioso ao perceber que havia uma carta sobre a penteadeira. Se aproximou do lampião para poder ler as novidades e saber como estava a remetente, sua prima. Mas havia apenas uma única notícia que o deixou mais transtornado, porque dizer que sua tristeza aumentou era ironia diante do tamanho das amarguras que se acumularam no decorrer de sua vida: a mãe de suas filhas se suicidou porque estava se sentindo sozinha, doente e profundamente arrependida pelas decisões egoístas que tomou. Ele, então, se dirigiu para a área da casa, olhou ao céu fixando o olhar na “Três Marias” e pediu que a alma daquela mulher tivesse uma chance de falar com a Imaculada Maria para pedir a benção para as suas “cinco Marias”.

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