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domingo, agosto 27, 2006

42. Todo mundo morre algum dia

Jornal de Cocal: 31 de março de 2005

Luiza fazia a tradução de frases escritas em inglês, quando uma delas a fez retornar ao passado: “Everybody dies some day”.

A descoberta de que nem todos os povos falavam a mesma língua a surpreendeu muito. Prestava atenção aos noticiários que abafavam as falas dos estrangeiros pelo tradutor brasileiro e às músicas que “não se entendia nada”. Os sons pareciam não ter nexo, mas tinham beleza por serem diferentes dos que pronunciava e porque na parte alienante de sua infância já ouvia dizer que tudo o que vinha dos Estados Unidos era melhor. Por causa desse fantástico mundo estranho, inúmeras vezes levou para a área da casa, uma mesa de madeira azul que transformava num palco e o socador de alho, preso a uma linha, que virava microfone. Sua imaginação tratava de criar as letras, montar a orquestra e colocar uma platéia eufórica no terreiro. Claro que só ousava fazer o show quando estava sozinha!
Sobre a mesa azul passou diversas horas estudando para enfrentar o verdadeiro palco da vida, enquanto reprimia as fantasias infantis que não costumam dar trégua sem pressão interna e medo de ser descoberta como uma pessoa anormal. Um número incontável de professores, livros, textos, vídeos, cursos, pesquisas, provas, palestras, trabalhos escolares, notícias, reflexões e de experiências foram acumulados ao longo do tempo para lhe provar que nesta sociedade capitalista sobreviverá aquele que souber usar sua criatividade e não quem tem apenas um diploma honesto.
Luiza, tristemente, pensa em voz alta:
- Todo mundo morre algum dia.Esse questionamento que provoca a humanidade desde a mais remota era e a faz acreditar e duvidar de tantas coisas, não seria indiferente para mim. Quantas vezes minha alma ainda irá querer entender o mistério da vida?
Lembrou-se de que certa madrugada, sua mãe levantou da cama para ir ao banheiro, percebeu que ela estava resolvendo exercícios de matemática e disse algo que lhe doeu profundamente:
- Minha filha, vá dormir! Você fica aí, estudando, estudando, estudando... Quando morrer irá esquecer tudo. Adianta?
Certamente, ela não pretendia desvalorizar o esforço da filha em aprender e sentiu um imenso orgulho ao vê-la abrindo as cortinas da independência. A princípio, não percebemos a sabedoria que há nessa expressão, que no fundo só pede para termos equilíbrio nas coisas que fazemos, ou seja, há um aviso de que nossa passagem por esse mundo abrange vários aspectos que não podem ser esquecidos. Talvez, a mãe de Luiza, possa explicar direito ou tenha esquecido o que disse naquela noite, mas, ninguém pode ter certeza disso porque os mistérios da morte não foram desvendados.

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