Depois de inúmeras curvas amontoadas, muita estrada de chão e uma porteira, conheci uma casa antiga. Ela foi construída antes da 2a Guerra Mundial, em 1930, no município de Anitápolis, por imigrantes alemães com habilidades que superavam as dificuldades de se obter os materiais usados na construção. Eles próprios fizeram os tijolos maciços e as telhas com formato quadrangular, dizem inclusive, que uma delas tem a marca do pé de um dos descendentes que na época era uma criança.
A fachada é decorada com desenhos, em alto relevo, de trevos de quatro folhas e esqueletos das cabeças de bois e búfalo. As paredes velhas apresentam perfurações e restos de tintas.
O porão subterrâneo, que provavelmente fora planejado para ser uma adega, assusta e desencoraja qualquer um que queira entrar por causa do abandono que perpassa décadas. Havia muita água que foi drenada e não se sabe realmente qual é seu estado e o que se esconde em suas entranhas.
O sótão é dividido em três quartos e uma sala decorada com tapetes da pele de um leão baio e até, de uma de suas vítimas que foi um porco-do-mato. Foi muito bom dormir lá porque choveu a noite inteira e tão próximos do teto, sem um forro, dava pra ouvir o som relaxante da chuva.
A sala principal é decorada com objetos antigos. Pendurada na parede há uma espingarda alemã modelo 22 dupla que o dono exibe também numa foto. A máquina de costura manual, me fez lembrar das calças e camisas, usadas para trabalhar na roça, que minha mãe remendava sempre aos domingos. Eu considerava os lampiões artigos de luxo, porque quando eu era criança somente os vizinhos mais abastados possuíam; nós usávamos um feito com pedaços de pano e querosene que era substituída por banha de porco quando faltava. Dois sofás servem para o conforto dos turistas, - um de camurça laranja e outro de um pano preto – o primeiro é parecido com um que minha família possuía, só faltavam uns pontinhos dourados que apesar da cor, pareciam cocô de mosca. Quase não identifiquei o estribo por estar separado dos apetrechos de montaria; perdi a conta das vezes que ajudei meu pai a encilhar o cavalo quando ia ao moinho levar milho para fazer fubá e arroz para descascar. Havia uns suportes de vela decorados em bronze e com formatos de máscaras. As capas dos ponchos lembravam àquelas usadas em filmes de faroeste para guardar os cobertores transportados durante longas viagens. São tantos os detalhes com os quais me reencontrei com meu passado!
Os antigos moradores afirmam que a casa é mal assombrada porque certa noite ouviram o barulho de um carrinho de nenê e de uma caixa sendo arrastados pelo chão, além dos passos de uma pessoa que descia e subia os três primeiros degraus da escala que leva ao sótão. Eu achei a casa encantadora justamente por preservar as lembranças e por resgatar a simplicidade que marcou a vida dos nossos antepassados. Se bem que, na sociedade atual não se tem mais tanta paciência para construir algo tão original e autêntico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário