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domingo, agosto 27, 2006

56. Atividades de férias

Jornal de Cocal: 7 de julho de 2004

Um sol loucamente quente faz brilhar as férias de milhares de vidas que aguardam ansiosas, momentos de lazer prazerosos com amigos e familiares.

O pai trava uma batalha interminável contra o vento, tentando ajeitas as folhas do jornal regional para apreciar a seleção de imagens e fatos que marcaram o milênio findado.

A mãe examina minuciosamente o corpo das jovens mulheres que circulam sorridentes, quase todas esbeltas. Irrita-se intimamente lembrando da luta diária contra as guloseimas que aumentam as gorduras, buscando consolo nas desconhecidas que também possuem um tecido adiposo extremamente desenvolvido.

A filha briga com a nuvens despreocupadas que se colocam inocentemente entre ela e os raios ultravioletas. Precisa exibir um bronzeado estonteante no baile mais importante do ano e está sendo estorvada por algumas “branquelas intrometidas”.

O filho – pequeno, inquieto e esperto – joga bola tendo, simultaneamente, como companheiro e adversário, o Oceano Atlântico. As ondas do mar, paulatinamente, o ensinam a ser persistente, a alegrar a vida, a amar a natureza e aproveitam para enrijar seus músculos e aperfeiçoar sua motricidade.

O avô percebe, por meio do comportamento e da experiência de longos anos o que acontece com os membros de sua família. Repentinamente, imagens nítidas de situações marcantes do período de sua infância e juventude vêm à tona. As guerras, as personalidades, as invenções, as denúncias sobre os problemas ambientais e as conquistas esportivas, sobre as quais seu descendente imediato se atualiza, já vivenciou pessoalmente ou pela imprensa. Sabe muito mais do que relata o resumo da História. Não compreende, apesar do esforço para acompanhar as mudanças de ações e mentalidades, a vaidade exagerada da nora e da neta que as deixam em estado de inferioridade pelos padrões de beleza modernos. Recorda do bronzeado forçadamente adquirido pela falecida esposa no trabalho árduo da roça; pensa em dizer que os valores humanos e espirituais “mandam lembranças”, porém cala-se, evitando criar um ambiente desagradável. O neto – se Deus quiser, terá um talento próximo ao do Garrincha – repleto de pureza e felicidade, o deixa em harmonia com seu passado que não tinha praia, mas era plenamente substituído por cavalos, petecas, árvores e bolas de meia.

Com certa melancolia, alguns questionamentos impossíveis de serem respondidos, cutucam sua alma: “Que estará fazendo, essa criança de riso fácil, no primeiro final de semana de 2062? Que recordações boas e ruins estarão guardadas em sua memória? Poderá estar observando seus entes queridos, debaixo de um guarda-sol, sentando numa esteira estendida sobre as areias do Rincão?”

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