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domingo, agosto 27, 2006

62. A minha Bíblia Sagrada

Jornal de Cocal: 18 de agosto de 2004

Quando comecei a freqüentar as primeiras aulas de catecismo pedi para meu pai comprar uma Bíblia Sagrada. Tive que insistir um pouco, por causa do preço, até que ele me permitisse encomendar um exemplar, através do padre que costumava visitar nossa comunidade somente uma vez por mês para rezar a missa. Os dias de espera foram longos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava o dia de recebê-la. Demorou três meses para chegar. Fiquei tão feliz no dia que a vi sobre a cômoda onde eram guardadas toalhas de mesa, vestes, letras de cânticos, alguns livros religiosos e velas. Nas duas vezes anteriores, minha timidez foi superada para me dar coragem de perguntar ao Frei Téo se minha encomenda estava com ele. Lembro-me que o livro divino era enorme, pesado, a capa plastificada de cor marrom, as folhas muito finas e amareladas, continha os dois testamentos e muitas informações interessantes do rodapé.

À noite, deitada na cama de molas ou sentada no sofá, também de molas, eu fazia a leitura pensando em conhecer Deus e compreender melhor os ensinamentos de minha catequista. Às vezes, minha mãe abria a porta do quarto e dizia: “Apague essa luz e vá dormir, menina.”. Eu teimava em ficar acordada, lendo, apesar da bíblia pregar a obediência. Para não me sentir culpada, respondia: “Só mais um pouquinho, mãe.” Enfim, exausta, fazia uma oração, colocava a bíblia embaixo da cama e adormecia... com a luz acessa.
Meu vocabulário limitado pela idade, e também pela própria vivência dificultava, o entendimento dos textos, que inclusive, são interpretados de maneiras diferentes por pessoas cultas e dedicadas ao estudo bíblico. Mas, eu estava determinava a dizer em pouco tempo: “Li a Bíblia Sagrada do início ao fim”. Não imaginava que as escrituras não fossem óbvias. Achei que encontraria respostas, mas descobri que há inúmeros mistérios que permanecerão indecifráveis porque é impossível retornar ao passado e buscar as verdades que mostram os fatos exatamente como aconteceram. Não podemos sequer, ter certeza das coisas que ocorrem hoje ao nosso redor, quanto mais há milhares de anos!

Uma das grandes lições que aprendi com essa Bíblia Sagrada, não foi através dos salmos, dos provérbios, das mensagens ou das parábolas que sabiamente foram registradas. Tive um grande exemplo do quanto somos incoerentes entre nossa teoria e nossa prática devido às brigas intermináveis que tive com meus irmãos por me considerar dona absoluta dela. Minha mãe é testemunha do quanto perturbei a todos por não admitir que alguém a pegasse sem pedir autorização. Eu transformava minha casa em um verdadeiro inferno, dizendo coisas horríveis, por causa do egoísmo e da possessividade. Por incrível que pareça, eu conseguia usar um instrumento da paz como arma de guerra!

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