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sábado, agosto 19, 2006

13. Jundiá ou burro

Jornal de Cocal: 3 de setembro de 2003

Era um sujeito que vivia rindo da própria desgraça. Todos os dias tinha algo a relatar sobre um fato constrangedor ou cômico em que se envolvera. Insistia em afirmar que tinha “a mente fraca” para o aprendizado escolar elaborado. Muito comunicativo, carismático e ativo, afirmava orgulhosamente que na rua sabia como ser “vivo, vaselina, 171, jundiá”; enfim, agia inteligentemente.
Em sala de aula, a atenção dos colegas era garantida quando contava o que fizera durante o dia. A turma acabava se descontraindo com o colega atrapalhado, que trabalhava em biscates.
Luis Carlos completara 21 anos cursando a oitava série. Suas dificuldades de aprendizagem, não a irresponsabilidade, foram as causas de tantas reprovações. Felizmente era dotado de uma personalidade característica de quem gosta de conhecer pessoas e espaços diferentes. Quando percebia que estava perdendo uma batalha, usava sua melhor arma: a lábia.
Pagara três vezes para realizar as provas de sinais de trânsito, sem sucesso e inconformado por cometer erros que ele próprio não admitia. Na quarta vez, apelou para poder conquistar a Carteira de Habilitação de motorista. Explicou ao funcionário do Detran que estudou com afinco, mas possuía “memória ruim”. Num discurso lamuriante, conseguiu...
Fez uma conquista médica devido ao surgimento de inúmeras espinhas que comprometiam sua aparência. Inclusive, cortou a fila pregando uma mentira. O produto receitado era composto pelo princípio ativo, peróxido de benzoila, garantia de que em poucos dias sua pele melhoraria consideravelmente. Piorou! Num dia reclamou do médico; no outro, confessou não ter seguido devidamente as instruções. Devia aplicar o produto e trinta minutos depois removê-lo com sabão neutro e água. Como desejava melhorar rapidamente, aplicou o produto como se fosse um hidratante.
Num sábado pediram que ele fosse ao mercado comprar couve-flor, comprou repolho. Voltou para trocar. Ao passar pelo caixa, a moça o questionou: “Por acaso, foi você que esteve aqui ontem, trocando bife de gado por bife de frango?”
Numa determinada aula chegou com cartazes e panfletos que buscou no Posto de Saúde, informando sobre Aids, sífilis e gonorréia. Pediu ao professor de Geografia uma camisinha emprestada, pensando em tornar a apresentação do trabalho mais interessante. Tinha certeza de que receberia nota máxima. A professora de Biologia, elogiou o empenho dedicado, porém, um tanto decepcionada, relembrou que a pesquisa solicitada referia-se exclusivamente às doenças que atacavam o sistema digestivo humano.
Luis Carlos, certamente continua alegrando quem esta ao seu redor. Não é um derrotado porque jamais lamenta suas falhas. Como poucas pessoas, esse jovem brinca com a vida categoricamente, apesar de parecer ter peças soltas nas engrenagens
de seu cérebro.

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