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sábado, agosto 26, 2006

20. Aluna insuportável

Jornal de Cocal: 2003

A estagiária de Psicologia inicia uma conversa com um dos professores que trabalha numa das turmas de quinta série que esteve observando, com a intenção de verificar se suas conclusões foram corretas:
- Há muitos problemas com os alunos que estudam nessa turma.
- Sem dúvida, posso lhe garantir que é a pior turma que já tive nesses dez anos de magistério. Toda vez que tenho que dar aulas para eles, meu estômago dói. Já passei maus momentos e gastei muito tempo tentando harmonizá-los. Presenciei coisas inéditas nesse grupo formado por um bando de mau-educados.
- Tenho que realizar um trabalho em virtude de meu estágio e pensei em trabalhar a questão da sexualidade depois que vi a maneira de ser e de agir de algumas meninas, especialmente da Julia.
- O que é que você quer aprender com ela?
A psicóloga percebe a ironia e continua:
- Entendi sua pergunta e é por isso que decidi; será delicado tratar do assunto. Posso lhe fazer uma pergunta, professor?
- Não precisa nem me perguntar se pode perguntar...
- Tenho notado que você não simpatiza com essa aluna, a Julia. Ela tem quinze anos, esta defasada em conteúdo, sua família é pobre e acho que a agressividade que apresenta se deve à falta de atenção e amor. Como educador, não te sentes no dever de ajudá-la?
- Ela é uma adolescente grosseira, irresponsável, que chega atrasada sempre quando aparece na escola, que não ajuda a fazer uma limpeza no pátio do colégio após uma festa junina porque “está aqui para estudar e não para trabalhar”, apesar de não saber produzir um texto decente e não conseguir dividir com dois números na chave. Se mete em todos os atritos dos colegas, o que faz piorar o clima da sala. Outro dia, a ouvi falando mau da direção que chamou sua atenção porque queria ficar no pátio da escola durante a prova de Geografia. Não respeita ninguém e os pais jamais comparecem para conversar. E quanto a pobreza, não é justificativa para todas essas péssimas atitudes. Sou de uma família muito simples, passei fome e tive poucas das coisas que desejei, no entanto, jamais faltei com educação aos mais velhos.
- Eu queria confiar na recuperação da Julia. Fiquei sabendo que ela faz vários cursos no período da tarde. Talvez ela vença na vida e nos prove que merece nosso voto de confiança.
- A visão da vida que essa garota tem é uma ilusão e não podemos mudar. Um dias desses ela falou que está fazendo um curso de computação na Universidade e que quando terminar terá garantido um emprego, pois foi o que o instrutor garantiu e sendo assim, terá que cumprir. Tive vontade de vomitar, não pelo que ela disse, mas da maneira como disse.
O sinal bateu, o professor pediu licença e se dirigiu para a sala dos problemas. Antes de iniciar as atividades programadas para sua disciplina pediu aos alunos que preenchessem um questionário que havia sido solicitado pela direção. Passados dez minutos, Julia grita:
- Nessa pergunta número dez eu tenho que responder quais os cursos que eu fiz ou os que estou fazendo agora? Como se escreve “humanização”?
O professor descrente, pensa: “Mais um curso que não está servindo para nada”.

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