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sábado, agosto 26, 2006

21. Quem é o maluco?

Jornal de Cocal: 2003

No muro de uma das escolas que freqüentei como estudante havia uma frase pichada que chamava muito minha atenção: “Os loucos são conseqüências dos não loucos”. Quando somos adolescente fazemos coisas que nos levam a refletir sobre a possibilidade de sermos mais malucos que normais. Cheguei à triste conclusão de que sou extremamente normal. Ainda hoje acho ridícula a pessoa que se considera maluca por pequenas bobeiras e que diz isso com o objetivo inconsciente de se enaltecer.
Essas recordações vieram a minha mente, sábado de manhã, quando eu estava numa parada de ônibus esperando uma carona para a Faculdade. Um homem de uns quarenta anos, calçando chinelos, vestindo uma bermuda arregaçada e carregando no ombro um cachorrinho preto se aproximou de mim. Logo percebi que o comportamento dele era anormal e tive certeza depois que ele ficou parado uns minutos observando um cartaz afixado num poste e o rasgou para jogar ao chão. Saiu andando, falando com o animalzinho e brincando no meio da rua. Meu coração apertou e forcei para não sentir piedade porque minha consciência me dizia que quem devia ter esse sentimento por mim era ele.
Quando minha professora parou para me dar a carona, mostrei-lhe o homem e falei sobre o recente acontecimento. Então, ela me falou de um “louco” que perambula pela cidade onde mora e mexeu ainda mais com meus sentimentos. “Ele não tem família, a higiene corporal é péssima, trabalha como peão quando consegue algum serviço, dorme um dia em cada lugar e procura conversar com as pessoas para mostrar que sabe muito sobre elas”.
Me impressionei com a forma como ele busca a atenção dos outros. Sua abordagem é mais ou menos assim:
- Qual é o seu nome?
- Luciana.
- E o seu sobrenome?
- Tedesco.
- Você é neta de quem?
- Meu avô se chamava Edmundo Tedesco.
- Seu avô nasceu no dia 4 de outubro de 1915 e morreu no dia 2 de abril de 1977. Sua avó se chamava Libera e nasceu no dia 22 de maio de 1927 e morreu no dia 8 de maio de 1983. Você é sobrinha de Egídio que...
Não é de estranhar que esse “louco” passe grande parte do seu tempo no cemitério, onde talvez, encontre paz e consiga conversar. Os registros que estão gravados em sua memória provam que ser diferente não é fácil e que qualquer ser humano guarda algo que pode ser importante para seus semelhantes.

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