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domingo, agosto 27, 2006

54. Agroceres: campeão da terra da gente

Jornal de Cocal: 23 de junho de 2004

Desde menina eu ouvia meu pai falando da “crise”. Eu o ouvi dizendo por quase trinta anos que as coisas iriam piorar. Aquela certeza que ele demonstrava em palavras, apesar de batalhar de sol a sol na plantação de milho para garantir a comida e o passe do ônibus que levava os filhos à escola, me entristecia freqüentemente. Muitas noites, ao redor do fogão à lenha, eu sonhava com o dia que teríamos uma casa nova, com banheiro e um fusquinha, mesmo que fosse amarelo. A casa foi construída, porém ele não conseguiu pagar o empréstimo antes de “nos deixar” e o fusquinha ficou nos planos que o tempo se encarregou de apagar.

No entanto, o negativismo que ele demonstrava em relação à economia e aos incessantes discursos contra políticos e carnavalescos não foram tão marcantes em minha vida, como o exemplo de homem trabalhador e a convicção dele em relação à necessidade de estudar para ser alguém na vida. Se meu pai não tivesse feito o máximo para eu retornar aos bancos escolares, certamente não teria capacidade e oportunidade de contar isso numa página de jornal. Eu sei que ele não deu ouvidos aos vizinhos que diziam que “filha mulher estudando vira puta e o diploma vem dentro da barriga”. Essa mentalidade retrógrada é fruto de arrependimento de alguns pais das minhas colegas de infância, porém sei que eles foram vítimas de sua própria ignorância. Não tenho raiva, tenho pena!

Meu pai dizia: “Preencha esse cheque e vá ao banco pagar a conta de luz e não esqueça de pegar outro talão pra mim”. Preencher o cheque eu adorava, mas entrar no banco era demais! Eu tinha vergonha, ficava nervosa, a mão suava, mas a ordem de pai não podia ser contestada. Felizmente, porque foi essa obediência que me ajudou a crescer como pessoa. Algo que hoje parece burrice fez chegar o dia em que eu aprendi a entrar em qualquer lugar sem ter receio ou me sentir desnorteada. Ele foi sábio por perceber que eu precisava “ter educação e educação”.

Não pude ter roupas e sapatos bonitos em minha juventude. Muitas das vezes em que eu fui aos cultos, às missas ou às festas da comunidade, usei uma saia vermelha com bolsos enormes – que eu ganhei de parentes que moravam na cidade – e também uma camiseta verde que trazia no peito a seguinte legenda: “Agroceres: campeão da terra da gente”. Essa camiseta, que acabou virando pano de chão, era especial porque eu a ganhei como prêmio de um concurso de redação quando estudava na quarta série, realizado pela cooperativa da qual meu pai era associado . Lembro-me que o tema era “uma história fantástica sobre um pé de milho” e eu imaginava que sementes foram levadas ao planeta Marte de onde, posteriormente, chegavam toneladas de sacas para alimentar a humanidade.

Trabalhei durante muito tempo para pagar a faculdade, cursos e conhecer alguns lugares. Por isso, ainda não tenho minha casa e meu fusquinha, mas não trocaria minhas conquistas por um apartamento e um Corolla. Não sei até que ponto posso ter orgulho disso, mas meu pai pode ficar tranqüilo, porque essa crise que tem deixado tanta gente desempregada não me afetará nesse sentido. Afinal de contas, ele me ajudou a ser melhor e forte diante dos obstáculos que uma boa educação são capazes de enfrentar. Eu só lamento não ter acreditado que um dia ele não estaria perto de mim para acompanhar minha caminhada nessa vida tão inexplicável.

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