A discussão toda começou depois de um comentário sobre a tentativa de alguns garotos de furtarem as calhas da escola, recentemente colocadas pela prefeitura, na madrugada de domingo. Felizmente uma moradora das proximidades ouviu barulhos, acordou o marido que conseguiu evitar a depredação, além de recuperar as que já haviam sido retiradas. Um dos professores disse que os ladrões pensavam que as calhas eram feitas de alumínio - não de latão galvanizado- e se vendessem para reciclagem ganhariam um bom dinheiro para comprar drogas. Havia forte desconfiança de que eram os mesmos que levaram no mês anterior os ferros da “boca-de-lobo”, que graças a uma denúncia, foram recuperados e o receptador processado. Com os menores infratores, nada demais aconteceu.
Esse assunto mexeu com as experiências da turminha que se aglomerava para prestar atenção no caso. Marlene lembrou da madrugada que acordou para tomar água e percebeu um vulto próximo à janela da cozinha e do tremendo susto que a deixou muda por alguns segundos, quando recuperou-se, chamou o pai que sem medo saiu para verificar se havia alguém ao redor de casa. Ana Flávia disse que freqüentemente sumia de cima da geladeira de sua avó uma carteira de cigarros, e ela pensava que eram os netos até o dia que encontrou um moço conhecido no bairro dentro da própria casa. Nilton ria relatando um desastrado roubo de uma máquina de cortar grama porque o ladrão, ao saltar o muro fez tanto alarde que chamou a atenção de vários moradores. Uma coisa interessante que se descobriu é sobre uma estratégia para perceber quando alguém se aproxima da casa: colocar brita ao redor, ao invés de grama ou de uma calçada, pois é difícil andar sobre ela silenciosamente. Uma menina de doze anos afirmava não ter medo de ladrão, que havia um facão bem afiado preparado para ser usado em caso de urgência e que sua mãe nunca saia sem deixar algum dos filhos cuidando das coisas, mesmo que fosse a mais nova de sequer completou dez anos e nada poderia fazer diante de um bandido. Marciel estava indignado com o sumiço da metade do dinheiro que seu pai tinha na carteira e desapareceu no local de trabalho; dava a impressão que o autor disso era uma pessoa meio amiga. E assim surgiram relatos sobre roubo de tênis, aparelho de som, tijolos, etc.
Essas crianças acham normal ter portões e muro altos para garantir a segurança, pagar o guarda da rua que passa seguidamente com sua bicicleta apitando, saber que uma carteira perdida com dinheiro nunca voltará intacta ao seu dono e ter que trancar janelas e portas com o maior cuidado. E é por isso que não sentem muito medo dos pequenos ladrões que fazem parte de suas vidas como se fossem baratas que se aproximam causando mais repúdio do que males. Infelizmente.
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