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domingo, agosto 27, 2006

71. Essa gente relaxada

Jornal de Cocal: 20 de outubro de 2004

Trabalhar como servente de uma escola com mais de quinhentos alunos não é tarefa fácil para Dona Luzia. Numa reunião pedagógica, ela e suas colegas aproveitaram o momento para pedir aos professores a colaboração na organização e limpeza das salas de aula. As reclamações são clássicas:

- Limpamos as carteiras com sapólio, esfregamos com esponja, deixamos limpinhas num dia e no outro já estavam todas rabiscadas. Os alunos da tarde dizem que foram os da manhã e os da manhã dizem que foram os da tarde. Assim não tem condições!

- Vocês precisam conversar com os alunos sobre os papéis de bala e de chiclete, porque não dá pra acreditar na quantidade que varremos todos os dias. Recolhemos muitas folhas de caderno amassadas e restos de lápis, perto da lixeira e não dentro dela. Que tipo de educação eles recebem? Será que fazem a mesma coisa em suas casas? Isso sem falar nas gomas grudadas na parte de baixo das mesinhas.

- Achamos que não custa nada organizar as mesas e carteiras. Às vezes, a bagunça é tanta que atrasa muito nosso trabalho. Quando bate o sinal é uma loucura, um empurra o outro e se derrubar uma carteira nem pensam em levantar.

O grupo de educadores se comprometeu em fazer um trabalho de conscientização, principalmente, nas salas que faltam mais cuidados. Uma das professoras lembrou que dentre trinta alunos, apenas três ou quatro, têm esses péssimos hábitos e que lamentavelmente a maioria paga pela minoria. Outros salientaram que os resultados não são imediatos: “Não é novidade que construir é muito mais difícil do que destruir, que fazer é mais complicado do que desfazer, que limpar demora mais do que sujar.”

As serventes sabiam que falar sobre esse assunto é desagradável e gera certa ansiedade. Por causa disso, Dona Luzia teve que tomar um chá de macela ao chegar em casa para acalmar a dor no estômago. Enquanto tomava seu remédio, ouviu a inquilina do apartamento do primeiro andar gritando furiosamente, da área de serviço:

- Essa gente porca, relaxada! Eu não suporto mais esse tipo de gente. Oh, gente porca! Gente relaxada.

A sensação de desconforto não aumentou porque Dona Luzia estava com a consciência limpa. Ela lembrou do cartaz afixado em sua porta, na semana anterior, pedindo que não jogassem lixo pelo fosso de luz do prédio. Ela entendia a indignação da vizinha, embora não pudesse concordar com aquele escândalo. Sentiu uma vontade descabida de descer para falar que era solidária, pois também enfrentava os mesmos problemas. Porém, não foi preciso porque o toque insistente da campainha logo avisou que teria problemas. Atendeu pensando que conversaria de maneira civilizada com aquela mulher, mas não teve chance. Desejando evitar “partir para a ignorância”, ouviu quieta:

- Não adianta dizer que não foram vocês, ninguém assume. Ontem, de joelhos, recolhi cotonete, xepa de cigarro e até plástico de absorvente. Já pedi educadamente e agora não suporto mais isso. Não, não tente me dizer nada. Depois, eu é que sou a louca, desequilibrada.

E antes que Dona Luzia tentasse se defender, a mulher virou as costas e desceu as escadas chutando as portas de quem não quis abri-la. A servente se colocou no lugar da vizinha, apesar de sentir raiva das ofensas que recebeu sem merecer. Estava convicta de que muitas pessoas pagam pelos erros cometidos por outras tendo apenas a certeza de que não são culpadas.

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