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domingo, agosto 27, 2006

70. Para conhecer é preciso viver

Jornal de Cocal: 13 de outubro de 2004

Um professor de História, fanático por trilhas, matas e cachoeiras foi visitar seu irmão que morava num apartamento minúsculo. Ele tinha acabado de revelar as fotos de um passeio que havia feito a Timbé do Sul – um município catarinense que faz divisa com terras gaúchas – e desejava mostrá-las a alguém que não gostava de sair da rotina.

Ao entrar na sala, percebeu uma enorme quantidade de roupas sobre o sofá, quase todas dobradas e passadas. Olhou para o ferro, que estalava de vez em quando, e afirmou brincando:

- Esse é o único barulho que se ouve nessa casa, hoje.

- É, estou sozinho. Meu filho está na pista de skate e minha esposa saiu para comprar mais um sapato. Aproveitei para passar essa montanha de roupas.

- E não ligou a televisão para lhe fazer companhia durante essa tarefa que todas as mulheres concordam que é a mais chata das funções domésticas?

- Nossa televisão queimou porque foi desligada.

- Como assim? Ah, você é um palhaço mesmo.

- Mas, sabe que estou gostando desse silêncio. Acho que nem vou buscá-la no conserto.

- E talvez, não tendo mais nada para fazer dentro dessa cadeia, me acompanhe numa próxima viagem. Trouxe umas fotografias para você ver.

- Sempre achei que devias ter feito faculdade de Turismo ou no mínimo ser professor de Biologia.

- A natureza foi feita para todos os tipos de pessoas e de profissionais curtirem.

- Você fala como se eu não curtisse os animais, as plantas, o sol.

- Sei que você adora curtir isso tudo através do Globo Repórter, Globo Rural, Globo Ecologia, Expedições, Discover e até em alguns programas de esporte. A televisão te engana, faz você pensar que conhece diversos lugares.

- De certa forma eu conheço muitos locais através dessas reportagens. Se não fosse assim, eu não saberia como é Fernando de Noronha, a Ilha do Mel, as cataratas do Iguaçu, o Pantanal, as ondas do Havaí.

- Só conhece realmente quem vive. Uma pedra filmada do alto por um cinegrafista dentro de um helicóptero e vista por você através de uma tela de dezenove polegadas, não é igual a mesma pedra, que eu vejo, deitado sobre a relva, usando tênis sujos e molhados. Acredito que todo mundo já viu uma pessoa gritando ao tomar banho numa cachoeira e se imaginou no lugar dela, mas poucos se deram a oportunidade de sentir a água gelada em seu corpo. O coração bate forte quando seguramos uma cobra-dágua ou vemos ao nosso lado uma jararacuçu e simplesmente nos impressiona, quando as assistimos num vídeo. Estar envolvido por bromélias no meio do mato é completamente diferente de observar uma exposição no shopping. Só pode dizer que conhece o som do vento quem já esteve no meio de um reflorestamento de eucaliptos com mais de dez anos. A dor que sentimos nos braços e nas pernas depois de tanto agarrar em galhos e raízes é prazerosa, ao contrário, da dor que sentimos nas nádegas quando ficamos vendo programas de televisão durante horas. Certamente, ao final de uma aventura dessa, voltamos para casa com o exterior imundo e com o interior renovado.

- Meu querido irmão, definitivamente, você me convenceu de que aquela propaganda de sabão em pó está certa: se sujar faz bem! Mas, eu prefiro continuar limpinho e sem dores físicas.

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