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domingo, agosto 27, 2006

69. Convocada para mesária

Jornal de Cocal: 5 de outubro de 2004

Naquele domingo de eleição, Lena não pôde dormir até tarde, como costumava fazer. Acordou tranqüila, pois já era a quinta vez que forçadamente colaboraria com a justiça eleitoral e já conhecia todo o processo: retirar a urna e a pasta verde, orientar o seu grupo quanto as suas funções, organizar as carteiras e mesas, colar na parede os cartazes com o nome dos candidatos, receber mais de trezentos eleitores e alguns fiscais, preencher justificativas e a ata, combinar com os colegas a escala do almoço, imprimir os boletins de urna, guardar os materiais, entregar o envelope com o disquete contendo os votos da sua seção e outros documentos, e finalmente, voltar para casa com o corpo dolorido e a certeza de mais uma missão cumprida.
Apesar de ver por alguns segundos a cada dois anos, a maioria das pessoas inscritas em sua secção eleitoral, tinha algumas que Lena já aguardava por suas características marcantes. O primeiro eleitor sempre chegava mais de meia hora antes, contava que tinha sido mesário durante muitos anos no tempo das cédulas e que após votar ia para a praia. Havia uma senhora com mais de setenta anos que fazia questão de dizer sua idade, talvez por ser muito bonita e jovial. Um casal de velhos era especial porque a esposa ajudava seu marido que era praticamente cego a reconhecer as teclas da urna, dizendo carinhosamente: “Pode fazer do mesmo jeito que treinamos no telefone lá de casa, é igualzinho.” Algumas pessoas pediriam auxilio. Com certeza alguns pais entrariam com os filhos, desejando levá-los junto no momento de digitar os números escolhidos, e ela teria que informar que é proibido por causa da lei que garante o sigilo do voto.
Não faltaram pessoas reclamando para a presidente da mesa:
- Não apareceu a foto do meu candidato, tem alguma coisa errada.
- Deve ser porque a senhora digitou o número do seu vereador e apertou na tecla “confirma” antes de olhar para a tela. É tudo muito rápido.
Outros, por falta de atenção ou ansiedade, votaram para prefeito quando deviam votar para vereador. Lena tentou amenizar a frustração que sentiam:
- Infelizmente, não podemos fazer nada. No entanto, seu voto não foi totalmente perdido porque foi pra legenda do partido de seu prefeito.
É claro que havia os inconformados, que não admitiam ter errado:
- Não pode ser, eu fiz tudo certo, apertei os números direitinho e não vi a foto do meu candidato.
Nos instantes em que não havia ninguém na seção, além dos mesários convocados, Lena pensava nas coisas que poderia estar fazendo se não fosse obrigada a estar ali e planejava comparecer ao cartório eleitoral para solicitar sua dispensa para as próximas eleições. Mas quando tudo terminou pensou que estava ganhando muito mais do que doze reais de vale-alimentação e o dobro de horas trabalhadas naquele dia para folgar no trabalho: entre tantos milhões de brasileiros ela sabia que fora escolhida para ajudar a garantir o processo democrático de seu país e apesar de parecer castigo era uma honra.

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