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sábado, agosto 19, 2006

9. Outra vez, Maria

Jornal de Cocal: 2003

Maria desperta ouvindo os sinos da matriz avisando que são seis horas da manhã e o barulho do avião comunicando uma partida ou chegada. Sagradamente, toda manhã, enquanto a água morna retira o suor de sua pele, pensa em ser mais inteligente, crítica e comunicativa para poder pegar aquele avião e ir discursar palavras honestas e orientadoras a pessoas que também amam o que fazem. Durante o modesto café matinal reprime seus desejos intrínsecos.
Maria vê os ônibus lotados de estudantes que, dizem, vão buscar os saberes necessários para a vida e de trabalhadores que labutam pelo pagamento de suas contas. Os jovens, em aparente harmonia com o Universo, proliferam suas dúvidas.. Os adultos a fazem identificar-se com as inúmeras mulheres brasileiras que desistiram de trabalhar para realizar sonhos audaciosos. Sente-se pequena, incapaz de cumprir sua missão e pensa em mudar seus planos...
Não reza mais com a mesma fé de seus antepassados, lembra que precisa ouvir o silêncio, pensa no tempo em que lia livros pensando em “ser alguém” . A igreja tenta acalmar sua dor, resolver seus conflitos, pregar-lhe o amor, convencê-la da importância de contribuir com o dízimo, mostrar-lhes as verdades do evangelho. Mas Maria só sente paz e tranquilidade divina quando sozinha, ora e aquece as mãos nas chamas das velas depositadas no velário da igreja pelos fiéis que a visitam num dia movimentado.
Os trabalhadores companheiros partem para sua jornada diária, buscando a sobrevivência de suas famílias. Pensam também, em melhorar o conforto de seu lar, mas possivelmente podem ter algo em comum, como o sofá que continua sendo um colchão de solteiro, a cortina improvisada que não mudará brevemente, a roupa que será lavada a mão, a locação de vídeo que ficará para uma outra vez.
Porém, não há de ser nada: o básico está garantido.

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