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sábado, agosto 19, 2006

8. Lembrando do passado

Jornal de Cocal: 2003

Maria ajeita na lâmina a parte lateral de uma folha de cidreira, procura a objetiva ideal e prende-a no revólver, observa pela lente ocular a quantia certa de luz fazendo o controle pelo diafragma, busca o foco, movimentando primeiramente o parafuso micrométrico e depois o macrométrico de um dos microscópios óticos do laboratório da Universidade onde cursa Ciências Biológicas.
O professor sisudo e perfeccionista explica que esta folha corta facilmente nossa pele por ter uma borda serrilhada. Ela vê com encanto esse segredo da natureza quase invisível a olho nu. A emoção da descoberta a remete ao tempo de criança, quando participava do trabalho rural, arrancando as folhas verdes dos pés de milho quase maduros.
Sempre soube que precisava ter um certo cuidado ao retirar as folhas longas que seriam usadas no trato do gado. Agora associa a imagem aumentada com a irritação e coceira que inúmeras vezes colhera quando desejada estar assistindo os heróis de sua época soltando teias de aranha, ficando enormes e verdes de raiva, disparando em seus carros estranhos, fazendo gracinhas com os policiais da cidade, guardando uma linda mulher numa garrafa, destruindo o mal para que o bem vencesse... E o bem sempre vencia!
A voz do mestre e uma outra folha a tira de seu deleite. Pertence a uma planta denominada inhame, que se caracteriza por produzir tubérculos nutritivos e saborosos e se desenvolve em locais úmidos.
Suas lembranças a fazem viajar novamente. Dentre as brincadeiras criadas com as filhas da vizinha que passeavam em sua casa nas tardes de domingo, recorda-se de quando transformavam as folhas de inhame em sombrinhas de madames do tempo imperial. O cheiro exalado, principalmente junto ao corte que aos poucos amarelava, causava náuseas e se persistissem com a fantasia, sentiam dores de cabeça. Não lembra se paravam com a brincadeira por causa disso ou devido aos gritos da mãe preocupada com a devastação que o tempo e a erosão se encarregariam de providenciar, deixando uma enorme laje no local.
A aula continua e ela perde a explicação. Sobre a folha dançam gotas de água que deslizam de um lado para o outro, não infiltrando porque deve ter alguma substância que... é mais um mistério da natureza que acabara de ser desvendado aos colegas.

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